3 de dezembro de 2008

... e de volta a Bolonha.

[Artigo dum Veterano da Academia]
Na continuação daquilo que havia sido dito acerca das insígnias, sua origem e significado, importa agora abordar a questão de como elas passarão a ser encaradas por esta Academia de acordo com a recente implementação generalizada da Declaração de Bolonha.


Ora, com a implementação daquela, a maioria dos cursos desta Academia viram a sua duração diminuída no que diz respeito às licenciaturas e passou a ver ser-lhes acrescentados mais 1, 2 ou 3 anos de Mestrado.

Antes de mais, aquilo que se tem de resolver é a forma como a Academia e a Praxe desta deve lidar com a própria Declaração de Bolonha. E quanto a isto duas soluções se afiguram: ou se entende que a Declaração de Bolonha mais não veio fazer do que dar nomes diferentes aquilo que já existia (se reparar-mos bem, somando os anos de mestrado com os anos de licenciatura, os cursos ficam com a mesma duração, e mais interessante é de verificar que os antigos Bacharelatos – curiosamente que correspondiam aos anos a que agora corresponde a licenciatura – deixam de existir), ou então entende-se que aquela consiste de facto numa mudança de fundo no Ensino Superior e que, portanto, tem de se adaptar a Praxe aos novos tempos.

Ora, quanto a este ponto, apetece citar Lavoisier (“Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”) para dizer que a Declaração de Bolonha mais não foi do que uma reforma encapotada para aparentar: aparentar que há uma sintonia com os sistemas de Ensino Superior europeus – curiosamente quando começam a surgir os primeiros resultados nesses países de que a o método de Bolonha está a falhar -, mas sintonia essa que mais não é do que passar a chamar a uma licenciatura aquilo que é um bacharelato e um mestrado aquilo que é uma licenciatura.

Mas quanto a isso, nada a fazer, parece que o pulsar histérico de milhares de estudantes com ânsia de parecerem aquilo que não são, ou seja, de cartolarem independentemente do facto de ainda permanecerem pelos corredores das Faculdades mais 1, 2 ou 3 anos, está a falar mais forte do que aquela eterna minoria que se encontra na Praxe pelos motivos certos e que ainda vê a cartola como um verdadeiro despedir da vida Académica e um apresentar do finalista como cavalheiro formado e apto a entrar no mercado do trabalho. De facto, que dilema não passará pela cabeça de um Dux (que cada vez menos controla a sua Casa para ser controlado por ela) quando tem centenas de doutores com anos de curso pela frente mas que da secretaria já os avisaram que até vão ser licenciados dentro meses – tem de se agradar à maioria ou mantém-se fiel aos princípios de Praxe (que, curiosamente, jurou defender!)?

E o mesmo dizer em relação às restantes insígnias. Se se cartola no fim duma licenciatura de três anos, que fazer com as restantes 4 insígnias (que até são as verdadeiras insígnias!) que há para impor? Faz-se uma maratona de imposições de insígnias e em 2 anos impõe-se Semente, Nabiça, Grelo e Fitas?
Isto agravado ao facto de se ter obrigatoriamente de se ser fitado na Queima das Fitas do 2º ano, de modo a poder-se ir no Carro no Cortejo!
Isso parece-me claramente um banalizar da solenidade e simbolismo que está associado às insígnias de um praxista e de que falei no anterior texto… Mas que outra opção existe?
Pessoalmente parece-me preferível retirar uma Insígnia nestes cursos de 3 anos e, sendo as Reais Insígnias (Grelo e Fitas) intocáveis – porque o impõe não um qualquer Dux de meia dúzia de matrículas, mas centenas de anos de Tradição Praxística! -,sobram as Falsas Insígnias (Semente e Nabiça) que, apesar de ser uma criação tão nossa, não podem sobrepor-se à importância das anteriores. Assim sendo, por uma questão de pura lógica, a cair uma insígnia (e somente para os cursos de 3 anos e só quando se tenha tomado a opção de não reconhecer o Mestrado como o prolongamento da licenciatura!), então deve cair a Semente, passando nestes cursos a impor-se na Queima das Fitas do 1º ano a Nabiça em vez do Grelo… Isto, logicamente, também só nos casos em que exista propriamente um Mestrado para além da licenciatura e em que este seja efectivamente crucial para o exercício da profissão e, principalmente, para o acesso ao mercado de trabalho – o que levará, como acontece na generalidade dos cursos, a maioria dos estudantes a prolongar os seus estudos para o mestrado, como antigamente acontecia com os Bacharelatos e Licenciaturas…

Apesar de tudo, um passarinho dos Leões disse-me que havia Casas em que se queria acabar com as Fitas… Esperemos que seja uma piada (de mau gosto acrescente-se!), e que quem dirige a Praxe desta Academia ainda tenha o bom-senso de não deitar anos de Tradição pela janela fora! Aguardo o decreto (com o coração nas mãos).



Apetece dizer: “Só capas. E sem fitas, a Praxe continua?”



Veterano da Academia do Porto.