20 de dezembro de 2008

Incoerências

Não tenho deixado de notar, para imensa tristeza minha, que realmente as prioridades e, consequentemente, os valores de uma grande parte da comunidade praxística portuense sofrem de uma incoerência gritante e preocupante.
Não é a primeira vez, longe disso, que me tenho deparado com casos de pessoas (e cada vez são mais) que defendem a Praxe, vão à Praxe, fazem Praxe, e que, pelos eventos realmente tradicionais que deveriam ser sagrados para qualquer (bom) praxista, nutrem um total desinteresse, e por vezes até desrespeito.
Ora isto, vindo de pessoas que supostamente são parte do "núcleo duro" da Praxe da sua Casa ou curso, não deixa de ser altamente hipócrita e incoerente.
Isto apenas vem revelar uma coisa: o estado de valores decadentes que a Praxe tem vindo a assistir.

Ultrapassa a minha compreensão que, pessoas que aparentemente estão dispostas (e realmente estão) a dar o corpo ao manifesto, estando presentes sempre que podem nos "momentos" de Praxe, não o estejam em situações que realmente deveriam estar, até porque, digamos em boa verdade, são muito mais importantes e significativas do que a maior parte dos outros "momentos".
Não me impute ninguém a tentativa de retirar importância a esses outros "momentos", nada disso. Apenas é um argumento lógico (explicado historicamente, logo tradicionalmente) que momentos como as Serenatas, as Imposições de Insígnias, os Cortejos, as Garraiadas, os Baptismos e as Latadas são mais tradicionais do que um dia qualquer de Praxe nocturna ou do que uma jantarada entre amigos. Num tom mais pessoal e provocatório, diria mesmo que são obrigatórios para qualquer praxista que se preze.
Estes momentos são, per si, a própria Praxe.
A Praxe Académica desenhada pelas quase mesmas linhas em que era desenhada por iguais de capa e batina à 20, 40, 60 e 80 anos atrás, sendo as serenatas datadas já do século XV até.
Quem não dá a devida importância, e acima de tudo, quem não "sente" estes momentos ímpares, está a perder uma toda essência que alicerça toda a Praxe Académica (ou deveria alicerçar), que é o "sentimento", o amor quase idílico que se desenrola nestes momentos entre estudantes e Praxe.

Cada vez mais é costume assistir-se a um total desinteresse das pessoas, nomeadamente na Monumental Serenata (para exemplificar). Uma vasta massa de pessoas apenas comparece lá para se encontrarem com os amigos, beberem umas cervejas e depois irem para o queimódromo. É-lhes muito seca estar de pé a ouvir "aquilo" até ao fim. Ora isto é a mais plena demonstração da falta de sentimento Académico e mesmo praxístico.
Mas nisto, já estou como o outro, que não queiram lá estar, que vão embora e não perturbem.
Quanto aos que lá ficam, e não sabem estar em condições, a esses dedico uma visão diferente.

Pois bem, é incompreensível que muitos desses ditos praxistas dos sete costados, aquando de um evento tão importante e nobre, não saibam estar de acordo com a própria Praxe que dizem tanto gostar. Se calhar gostam dela pelas razões erradas, busca de um pseudo-poder, quiçá, pseudo-valorização pessoal... Enfim, qualquer coisa.
Mais surpreendente é o facto de a própria Praxe, como um mecanismo, não responder a estes verdadeiros e alarmantes atropelos!

Na Serenata, assistimos a pessoas a falarem alto, a rixas entre faculdades (chegando mesmo a vias de facto), vendedeiras a venderem cerveja a alto e bom som, a vendedores de pipocas, enfim, a uma toda multidão paralela que, enquanto corre a serenata, está totalmente alheia a esta!
Longe vai o tempo em que na Sé (antigo local da Monumental Serenata) não se ouvia uma mosca, sendo o silêncio absoluto... Realmente este facto diz muito, ilustra perfeitamente a latente mudança de mentalidades por parte dos estudantes...

Rapam-se gajos por muito menos, fazem-se julgamentos e praxes por quezílias insignificantes... Curioso e irónico é que nada se faça quando o nome e a essência da própria Praxe sofrem "atentados" desta espécie... Se calhar a essência foi deturpada, não sei. Serão já conjunturas hipotéticas minhas. Mas realmente é o que parece, talvez seja mais importante andar a rebolar na lama ou a empranchar do que fazer silêncio na Serenata ou saber trajar em condições...

Quanto a mim, não partilho dessa vertente.
Estou e estarei sempre até ao fim das Serenatas (e afins eventos "pedras basilares") até gritar de plenos pulmões o FRA pela Academia. Nem que seja um grito pela utópica Academia que concebo, que o seja, nesse caso será bem mais sentido então.

Enfim, e vão assim as coisas...


"Só capas, só fitas, a praxe continua."

Administrador