2 de dezembro de 2008

Um ensaio à volta das Insígnias

[ Artigo dum Veterano da Academia ]
Na Academia do Porto impõem-se, actualmente, 4 insígnias: Semente, Nabiça, Grelo e Fitas (cronologicamente falando); a estas costuma-se acrescentar a Insígnia de Finalista – a Cartola, a Bengala e a Roseta ou Laço (que embora não sendo uma verdadeira Insígnia, pela proximidade com as restantes tende-se a confundir).

Historicamente, como é sabido, existiam duas insígnias, ou como os antigos ainda a elas se referem (oportunamente, acrescentemos nós), as Reais Insígnias.
As Reais Insígnias são aquelas que foram pioneiras na Tradição estudantil - o Grelo e as Fitas. Não se sabe com certeza qual delas terá surgido primeiro ou até se o seu nascimento é contemporâneo, mas, a título de curiosidade deixo-vos aqui a história a mim contada pelos “mais velhinhos” da minha Casa acerca do surgimento destas.

Quanto às Fitas, estas começaram por ter um sentido mais pragmático do que propriamente sentimental ou simbólico, uma vez que serviam originalmente para unir as duas partes da pasta estudantil; de facto, nos tempos velhinhos da Universidade de Coimbra, os estudantes de então não utilizavam a pasta do traje tal como as conhecemos actualmente, antes elas se assemelhavam a duas placas perfeitamente separadas que ajudavam os livros e as sebentas a, assim, ficarem de certa forma protegidas das intempéries. Ora, para unir essas duas partes da pasta passaram os estudantes a usarem fitas de determinadas cores (que posteriormente passaram a ser as cores das respectivas Faculdades da UC).

Já o surgimento do grelo surge ligado a um protesto estudantil contra o aumento do preço dos alimentos e, uma vez que nessa altura os protestos não eram muito bem vistos (leia-se, autorizados), os estudantes decidiram passear-se com grelos (literalmente) metidos no meio das pastas como manifestação do seu desalento – desta insígnia depois facilmente se chegou aos nomes das insígnias que surgiram posteriormente e isso explica o porquê de três das quatro insígnias terem nomes de vegetais.
Assim se contam as estórias, que terão a veracidade que terão; numa matéria com tão pouca documentação, é difícil perceber onde acaba a realidade e começa a especulação, mas também isso faz parte…

Já quanto às Falsas Insígnias (Semente e Nabiça), tanto quanto me é dado a saber, elas foram invenções dos praxistas da nossa Academia. Após um período de importação das tradições praxísticas de Coimbra para o Porto (nomeadamente com o alargamento da Universidade do Porto e, em maior medida, na década de 80), como resposta a uma necessidade de se impor uma qualquer Insígnia nos primeiros anos de curso, principalmente naqueles cursos mais longos como Medicina, as Engenharias, Direito, Arquitectura, etc. Curiosamente a Academia de Coimbra veio posteriormente a adoptar estas insígnias, estabelecendo de novo a uniformidade entre Coimbra e Porto nesta matéria.

A insígnia de finalista sempre esteve associada (e é bom que se tenha isto presente!) a um desatar da vida boémia estudantil e a uma apresentação e inclusão progressiva do finalista no mercado de trabalho e na sociedade de uma forma geral, daí estas constituírem numa cartola e bengala como que a adornar os finalistas como verdadeiros cavalheiros de respeito (relembre-se que na origem da Praxe estava um ensino superior frequentado esmagadoramente, para não dizer exclusivamente, por homens), e sempre foi esta a ideia subjacente a todos os rituais ligados ao último ano do curso, como o Rasganço, o trajar de gala para o Baile de Finalistas ou Chá Dançante – há como que um despedir do estudante de toda a parte boémia da sua vida académica para se operar uma transformação que o aproxime cada vez mais de um cavalheiro feito, pronto para integrar a sociedade como homem formado.

E assim se tem mantido o status quo na Praxe no que diz respeito a insígnias. Deste modo, ao lado de uma progressão na hierarquia da Praxe em função de número de matrículas, as Insígnias pessoais marcam a progressão do praxista ao longo do seu curso, desde um tímido iniciar dos estudos marcado por uma Semente imposta pelo Padrinho, até ao crescimento dessa semente naquilo que virão a ser longas fitas coloridas que no final do curso serão abanadas com saudade na sua última Monumental Serenata e queimadas na sua última Imposição de Insígnias, a representar o despedimento do praxista de todo um ciclo.

Tudo isto é Praxe, e a Praxe não é só isto!

Veterano da Academia do Porto.