8 de fevereiro de 2012

Praxe no cinema e nos media

O sítio online do jornal Público destacava a semana passada uma peça sobre uma recente curta-metragem sobre Praxe da autoria de Bruno Moraes Cabral.

Tendo sido, posteriormente, contactado para contribuir com algumas impressões que, fiz questão de salientar, seriam sempre a título pessoal, aproveitei para destacar que:

1) Não tendo ainda podido ver o documentário em causa, mas estando ao corrente do mesmo, pelas imagens que tive oportunidade de ver e pelas declarações do realizador, parece-me desde logo um documentário que se baseia numa amostra "enviezada", isto porque:

a) se dirige principalmente a academias que de tradição académica muito pouco têm, se é que se pode afirmar mesmo que o que têm é Praxe Académica. É o caso de Lisboa, Évora e afins, onde o fenómeno das praxes é algo recente e que se baseia em "caçoadas" a caloiros. Coisa que, sendo parte da Praxe Académica, não a define nem a resume. Desde logo, ao focar-se em Academias bastante desenraizadas dum propósito tradicional, não contribui para um espelho fiel do que são as tradições académicas e muito menos para uma verdadeira compreensão do que é a verdadeira Praxe Académica. Se o objectivo do documentário era esse, o de tentar compreender a Praxe, então, para qualquer pessoa que tenha perdido tempo a estudá-la, é óbvio que só existem duas academias que permitem um estudo verdadeiramente abrangente. Essas são, em primeiro lugar, Coimbra e, pelas suas semelhanças e antiguidade, o Porto, ambas com tradições académicas praticamente ininterruptas há mais de um século.

b) o autor, de todas as actividades e dinâmicas que se englobam na Praxe Académica, decide apenas focar-se, pelo que é dado a parecer, nas "caçoadas" aos caloiros, nas recepções para eles preparadas pelos mais velhos. Ora, mais uma vez, ao focar-se apenas nessa prática e ao ignorar dezenas de outras, está a enviezar a sua amostra. Porque não uma abordagem aos cortejos de queima das fitas? Ao cortejos de Latadas? A imposições de insígnias? A serenatas? Tudo isto faz parte do universo das tradições académicas, mas parece que se insiste em ignorá-lo. Infelizmente.

c) pelas próprias declarações do realizador acerca do que o mesmo entende sobre o que é a Praxe Académica, transparece um grande desconhecimento académico sobre a matéria, ficando a sensação de que apenas apoia as suas opiniões naquilo que foi filmar e não tanto em trabalho de biblioteca. Fica igualmente a sensação de que o realizador já terá partido para o documentário com ideias pré-concebidas sobre a matéria e, desde logo, decidido a mostrar apenas um vértice das tradições académicas entre muitos outros, de forma a assim poder comprovar essas ideias.

2) Tendo em conta tudo isto, e não ignorando que existem abusos feitos em nome da Praxe e que nem toda a gente é, longe disso, bem formada, importa sempre reafirmar que a verdadeira Praxe Académica dos nossos tempos não se compadece com humilhações de qualquer tipo. No entanto, e repetindo, não se pode ignorar que elas ocorrem e que devem ser lidadas de forma implacável. Algo que nem sempre, infelizmente, acontece. Existe muita má informação a circular sobre o que é ou deve ser a Praxe Académica, reduzindo-a ao mero acto de praxar, e essa má informação é muitas vezes colhida e interiorizada por estudantes, supostamente, praxistas. De facto, basta a Praxe Académica ser uma tradição praticada por pessoas para estar, desde logo, sujeita aos erros e defeitos que cada indivíduo tenha. Se alguém é prepotente e vil, esses traços estarão presentes em tudo o que faz e isso arrastar-se-á ao seu trato com caloiros. Na vida encontramos pessoas bem e mal formadas, respeito e humilhações. Tal como em qualquer outra vertente, a dinâmica da Praxe Académica em nada difere nesse aspecto. Sobrará sempre a nossa liberdade de fazermos o que bem entendermos e, em casos de Praxe, esperar-se que se perceba que os abusos que ocorrem nunca são feitos em nome da Praxe e que, nada mais sendo do que uma deturpação - seja por parte de um ou muitos - do que a mesma pode e deve ser, essa deturpação nunca deverá ser apelidada de "Praxe".

De tudo o que partilhei com a jornalista, aproveitaram-se apenas umas frases breves e, numa delas, a peça final descontextualiza, de certa forma, o que disse.
De facto, tendo concordado que muitas das passagens do clip sobre a curta-metragem, no que concerne a dinâmica entre doutores e caloiros, reflectem algumas coisas que se passam na Academia do Porto, mas que variam imenso de Casa para Casa, não quis de qualquer forma deixar implícito de que a Praxe na Academia do Porto seja basicamente aquilo, porque nem eu o disse, nem ela o é.
Ou seja, se em alguns casos se "obrigam" caloiros a olhar para o chão ou, noutros, a rastejar enquanto lhes fazem judiarias, em muitos outros casos (até porque a Academia é enorme) já não será assim, ou em parte, ou de todo. Mais, disse igualmente que tudo isto, para além de variar de faculdade para faculdade, varia igualmente de curso para curso, de pessoa para pessoa e, portanto, de certa forma, de ano para ano (quantos de nós já ouviu dizer que "no nosso ano a recepção ao caloiro foi bem melhor/pior"?). Ficou-me a sensação de que não fui totalmente bem interpretado na resposta, que foi mais um "sim, nas recepções, que são apenas uma parte da dinâmica entre caloiros e doutores, acontece também na Academia do Porto muito do que se vê neste clip, mas depende da Casa e das pessoas". Fica a adenda.

2 comentários:

  1. Caro Administrador:

    mais um tema interessante e oportuno. Ainda por cima com a aproximação do fim da "hibernação" académica, que há-de durar até fins de Maio, vem mais do que a propósito.

    No entanto, não pude deixar de pensar no seguinte:

    é verdade que em 99,9999999% dos casos em que o tema é "tradições académicas", as peças jornalísticas salientam os maus exemplos e as situações infelizes (e por vezes trágicas) que acontecem num contexto dito "de Praxe". Com este documentário muito me admiraria se fosse o contrário.

    No entanto, não posso deixar de referir o seguinte princípio do jornalismo: "Cão morde homem" não é notícia; "Homem morde cão", sim.

    Isto é: é o carácter excepcional de um facto que o transforma em notícia, não o facto em si. Por cada "Caloira humilhada em práticas sádicas" há "30.000 caloiras não foram absolutamente nada humilhadas". Por cada "Brincadeira académica termina em tragédia" há centenas de "Brincadeira académica fez rir toda a gente, até o próprio visado, que disse que nunca se divertiu assim na vida".

    Infelizmente, e vistas bem as coisas, estes segundos hipotéticos títulos de jornal nunca fariam a fortuna de ninguém. O que me deixa feliz: ficaria preocupado no dia em que os jornais tiverem títulos como "Idosa chega a casa sem ser assaltada" ou "Carro percorre a totalidade da A1 sem sofrer acidente" ou "Há uma casa no Porto que ainda não ardeu" ou ainda "Descobrimos dois países que não estão em guerra com nenhum outro".

    Isto sim, seria verdadeiramente trágico. Felizmente, as notícias de jornal/TV apontam apenas as excepções que confirmam a regra: "Homem assaltado em plena baixa ao meio-dia" equivale a mostrar que a regra é as pessoas não serem assaltadas nem de dia, nem de noite. Se a regra fosse o assalto, ninguém ligava nada ao título.

    Sendo assim, o que vai acontecer é o seguinte: o documentário vai para o ar, vai haver muita gente indignada, vai haver muito falatório em fóruns da rádio e da TV, vai haver comentadores de treta a dizer bacoradas na TV, vão ser convidados 3 ou 4 boçais "da praxe" (tipo Américo ou um dos cães de fila do estilo) que vão para lá dizer burrices pegadas, sem saberem alinhavar uma frase com princípio meio e fim, dizer que "a praxe é dura mas é a praxe ave dux veteranorum semper dux ave veteranorum excelletia magna" - ou outra estupidez do mesmo calibre - e deixar uma imagem ainda pior dos praxistas... e para o ano cá vamos estar todos outra vez a fazer as mesmas coisas e a lamentar mais um título de jornal que diz mal da praxe.

    E assim sucessivamente.

    O que me faz lembrar o que me trouxe afinal aqui. Mesmo este portal acaba por enfermar do mesmo vício. Por que não começar a dar publicidade aos bons exemplos de praxe e deixar cada vez mais de apontar os maus?

    Aquele abraço, meu caro Administrador!

    Eduardo

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  2. Caro Eduardo,

    Mais uma vez nos brindas com uma excelente reflexão.

    Tenho de concordar que, de facto, o que mais "salta à vista" e mais mobiliza as pessoas (e eu nelas me incluo) a opinarem são precisamente aspectos negativos das coisas. Aliás, não tenho qualquer dúvida que o Praxe - Porto nem sequer existira se por acaso as tradições académicas na nossa Academia fossem um mar de boas práticas. Ele surge, precisamente, como (tentativa de) resposta a algumas más práticas, num objectivo de desmistificar e informar melhor sobre o que vem a ser isto de Praxe. O próprio subtítulo o denuncia: "pela praxe sadia e moderada, pelo bem das tradições académicas"! ;)

    Pintar a Praxe Académicas pelas cores com que a mesma merece ser pintada e que, felizmente, mesmo que de forma fugaz, ainda vai tendo uns dignos artistas a salpicar a sua secular tela, é algo que gostaria de fazer com mais regularidade, confesso. Não o tenho feito. Quando arranjo disponibilidade para criar umas linhas, a norma é tal ter sido motivado por uma qualquer revolta interior sobre uma qualquer ocorrência negativa. Tentarei, se conseguir, trazer mais coisas positivas para aqui. Nem que seja para honrar da forma correcta aqueles que ainda as fazem. ;)

    Um grande abraço para ti meu caro.

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