24 de setembro de 2012

"Há sempre alguém que resiste"

Têm circulado à boca cheia pelos quatro cantos da Academia e variados portais da net (como é o caso do reputado PortugalTunas) os mais recentes desenvolvimentos do ataque aberto ao Orfeão Universitário do Porto promovido pelo Magnum Consilium Veteranorum.

Segundo parece, o MCV terá decretado a proibição a todos os grupos académicos (tunas, grupos de fados, etc) de convidar o OUP para eventos, e a participação em eventos em que o OUP esteja presente, mesmo que organizados por terceiros.

Os adjectivos para qualificar estas acções, tal como as que a precederam, já começam a faltar. No entanto, e porque já é apanágio habitual deste local fazer chover no molhado, cá vai mais uma enxurrada de razões.

Escolhe-se aqui transcrever, na íntegra, o Manifestvm Tvnae (saído na altura do ataque do MCV às tunas da Portucalense, e logo subscrito pelo Praxe - Porto) que, pelo brilhantismo e claridade da exposição do problema em mãos, acaba por tornar o que demais se puder dizer sobre o assunto, francamente redundante.


"Tem‑se vindo a assistir, ao longo dos últimos tempos a tentativas de ingerência, por parte dos auto‑proclamados “organismos de Praxe”, com cada vez mais frequência e intensidade um pouco por todo o país.

Os recentes acontecimentos no Porto – nomeadamente a posição assumida pelos auto‑intitulados “representantes da Praxe” face às Tunas da Universidade Portucalense Infante D. Henrique do Porto (UP-IDH) – constituem um alarmante sinal dos tempos e configuram uma intolerável ingerência, nunca antes operada, no funcionamento interno daqueles agrupamentos, causando fortes desequilíbrios no quadro normal das relações institucionais.

A pressão daquele “organismo de Praxe” – de todo em todo alheio ao fenómeno «Tuna» – tem levado tunas de outras instituições a recusar convites para a participação em actividades promovidas pelas Tunas da UPIDH, circunstância agravada pelo facto de as recusas terem partido de tunas com as quais mantêm uma relação de apadrinhamento.

Perante a possibilidade de este infeliz exemplo alastrar a outras Tunas/Estudantinas de outras Academias,

CONSIDERANDO QUE:


A. a Praxe, enquanto conjunto de tradições e costumes, é património imaterial comum de TODOS os estudantes;

B. nesta medida, todos os alunos que o desejem podem livremente, dentro do respeito pelo património herdado e das tradições que lhes foram transmitidas, aderir e participar nos actos consagrados como Praxe;

C. sendo um conjunto de tradições, não pode, por essa mesma razão, ser proibido a nenhum aluno universitário o seu exercício ou a participação nos actos que se considerem ser próprios da Praxe - tal como a nenhum cidadão pode ser proibido o festejo dos Santos Populares;

D. nesta medida, nenhum organismo (com ou sem personalidade jurídica, e muito menos estes últimos) pode reclamar para si a propriedade intelectual, o registo, a patente, etc. deste conjunto de tradições - nem as designações dos actos ou dos graus hierárquicos (Queima das Fitas, caloiro, veterano, etc.)

E. à apropriação indevida de um direito dá-se o nome de “usurpação”;

F. face ao anterior, qualquer tentativa de proibição de participação nas actividades consideradas de Praxe é, por sua natureza, desprovida de qualquer efeito;

G. a Praxe contempla e consagra um conjunto de direitos e deveres que devem ser integralmente respeitados por todos os que a ela livremente aderirem - e, por maioria de razão, por aqueles que afirmam estar no topo da sua hierarquia;

H. a hierarquia da Praxe enquadra apenas cada aluno individualmente considerado, não as instituições ou organismos a que os alunos pertençam - e muito menos nos casos em que as Tunas tenham personalidade jurídica própria(Associações Culturais e Juvenis sem fins lucrativos);

I. nesta medida, as sanções da Praxe só podem ser exercidas sobre cada aluno individualmente e nunca sobre as Tunas/Estudantinas enquanto colectivos.

J. os auto-intitulados “organismos de Praxe”, por não possuírem personalidade jurídica, representam informalmenteapenas os alunos que a ela voluntariamente aderem;

K. a autoridade informal dos auto‑intitulados “organismos de Praxe” estender‑se‑á, quando muito, às actividades e práticastradicionalmente consagradas e consideradas como tal;


E CONSIDERANDO AINDA QUE:

L. as Tunas/Estudantinas em Portugal NÃO nasceram da Praxe nem têm raízes na cultura académica portuguesa tradicional, algo facilmente demonstrável;

M. por esta razão e pela circunstância de serem colectivos, não indivíduos, as Tunas/Estudantinas não estão, nem podem estar, porque nunca estiveram enquadradas na hierarquia da Praxe;

N. as Tunas/Estudantinas são agrupamentos artísticos em estrito pé de igualdade com outros organismos circum‑escolares que prosseguem fins artísticos, culturais, recreativos ou desportivos, que pela mesmíssima ordem de razões não estão nem podem estar enquadrados na hierarquia da Praxe;

O. as Tunas/Estudantinas possuem estruturas hierárquicas internas, bem como práticas e ritos próprios, cujas designações são em parte coincidentes com as designações dadas a certos rituais e graus hierárquicos em Praxe, circunstância que se justifica apenas pelo facto de a maioria dos seus elementos ser praxista;

P. na medida em que são organismos circum‑escolares, as Tunas/Estudantinas representam todos os alunos da instituição cujo nome ostentam, mesmo os que afirmam não gostar de tunas;

Q. na esmagadora maioria dos casos, a autorização para a constituição das Tunas/Estudantinas foi concedida pelasautoridades escolares competentes – reitorias, direcções, conselhos directivos, etc. –, ou foram geradas e apoiadas em termos logísticos e financeiros por entidades democraticamente eleitas e representativas, como as Tunas/Estudantinas, de todos os estudantes de uma instituição, como as associações de estudantes, não pelos auto‑intitulados “organismos de Praxe”;

R. face ao ponto anterior, as Tunas/Estudantinas têm de responder apenas perante as entidades que as reconheceram formalmente ou que as apoiaram em termos logísticos e financeiros ou até mesmo perante somente a Lei, no caso daquelas que são elas mesmo associações com personalidade jurídica;

S. se alguma Tuna/Estudantina teve de pedir (e obteve) autorização para utilizar a designação que utiliza ou recebeu apoio financeiro e logístico do(s) “organismo(s) que tutela(m) a Praxe” na sua instituição de ensino, deve essa Tuna/Estudantina responder perante esse(s) “organismo(s)”;

T. os componentes das Tunas/Estudantinas e as mesmas enquanto instituições devem manter o melhor relacionamento possível com todos os Praxistas e os (ditos) seus representantes, mas sempre dentro dos limites recíprocos de independência;

U. se adoptarem como “traje de tuna” o traje académico da instituição que representam, devem respeitá‑lo integralmente na sua forma e nas convenções de uso e acatar as disposições emanadas, exclusivamente neste domínio, pela auto‑proclamada “tutela da Praxe”;


OS SIGNATÁRIOS:

REPUDIAM vivamente as atitudes abusivas, prepotentes e ilegais tomadas pelos auto‑proclamados “organismos de Praxe” ao longo dos últimos tempos contra as Tunas/Estudantinas de forma geral;

EXORTAM as Tunas que recusaram convites para actividades promovidas por outras Tunas – obedecendo de livre e espontânea vontade aos ditames dos auto‑intitulados “representantes da Praxe” da instituição de ensino superior a que pertencem – a reconsiderarem a sua posição;

CHAMAM A ATENÇÃO para a necessidade de vincarem claramente a separação histórica que sempre existiu entre as Tunas/Estudantinas e os organismos que afirmam “tutelar a Praxe”;

ALERTAM todas as Tunas/Estudantinas nacionais para a importância de, face aos recentes acontecimentos, se proceder a uma clarificação dos limites da ingerência de entidades externas;

RECORDAM, neste ponto, que as Tunas/Estudantinas portuguesas NÃO nasceram da Praxe nem dela são uma decorrência;

INSTAM os auto‑proclamados “organismos representantes da Praxe” a fazerem uma profunda reflexão interna sobre a natureza das relações que deverão de futuro manter com as Tunas/Estudantinas – que se encontram claramente FORA da sua alçada;

SUBLINHAM, neste ponto, a conveniência de cada Tuna/Estudantina recordar a(s) entidade(s) a quem teve de pedir autorização para existir ou usar a sua designação, ou da qual recebeu apoio logístico e/ou financeiro, pois SÓ perante essa(s) tem de responder;

APELAM às Tunas/Estudantinas para que mantenham o melhor relacionamento possível com todos os auto‑intitulados “representantes da Praxe” em todas as Academias, mantendo um franco clima de cooperação e diálogo, salvaguardando sempre os limites da independência histórica das Tunas/Estudantinas;

FORMULAM O VIVO DESEJO de que todas as Tunas/Estudantinas portuguesas saibam dar provas da maturidade institucional que lhes é exigida, contribuindo para uma solução inteligente, elegante, responsável e elevada desta situação, a todos os títulos lamentável, para a qual as Tunas/Estudantinas em nada contribuíram, frisa-se;

EXORTAM todas as Tunas/Estudantinas – e em especial as que estão na mira desta atitude abusiva, injustificada e inaceitável a regerem‑se pelo seu próprio código de valores, ignorando toda e qualquer disposição que as possa condicionar contra a sua própria vontade;

RECORDAM às Tunas/Estudantinas que voluntariamente venham a acatar as disposições de pseudo‑organismos estranhos à Tuna (como fenómeno) que, ao fazerem-no, estão a violentar claramente quer a longa história da Tuna em geral, quer a sua própria história em concreto;

APELAM a todas as Tunas/Estudantinas portuguesas para que, com a elegância e inteligência que sempre as caracterizou, se saibam fazer respeitar com a máxima firmeza e convicção, mantendo a Tuna do lado da razão que, naturalmente, lhe assiste. Apelando os Signatários ao bom senso de todos, não deixarão contudo de reafirmar a certeza firme, clara e inequívoca de que a Tuna tomará em mãos a sua defesa sempre que o momento assim o justificar, sem temer seja quem seja.


A Tuna ao longo da História sobreviveu a Monarquias, Repúblicas, Democracias e Ditaduras, a Reis e a Caudilhos. Seguramente continuará pujante na sua antiga, vetusta e venerável caminhada, do qual o presente episódio é, AFINAL, apenas uma pequena e insignificante nota de rodapé."


As notícias de hoje trazem-nos que a Tuna de Engenharia da Universidade do Porto (TEUP) terá aceite o convite endereçado pela Tuna Universitária do Porto (TUP) para participar no XXVI FITU.

A confirmar-se a presença da TEUP no certame da TUP, dar-se-á assim início a um mote para que se deixe às tunas o que é das tunas, à praxe o que é da praxe, e à estupidez... o silêncio e a indiferença.

Desta cantinho insignificante que é o Praxe - Porto, apela-se a todos uma adesão massiva ao próximo FITU, ao próximo PortusCalle e a todo e qualquer certame organizados por tunas ou grupos académicos que se neguem a actos arbitrários de sectarismo e perseguição.

É sempre reconfortante saber que
"há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não."

Que isto sirva de ponto de partida para algo melhor.


"Só capas, só fitas, a praxe continua."

6 comentários:

  1. Louva-se o Praxe Porto peo serviço público que presta em defesa da honra, da verdade e do prestígio da academia portuense e da Praxe.

    Há sempre alguém que resiste e diz não, mas seja agora hora de surgirem os "capitães da praxe", para que à semelhança do Abril de 1974, possam vir para a rua depor a ditadura da incompetência liderada pelo Américo Martins e seu séquito de parasitas.

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  2. Podiam adicionar ai o ponto em que todas as tunas e grupos académicos são obrigados a que os novos membros (caloiros) tenham de estar activamente na praxe da respectiva faculdade, caso contrario não podem estar na tuna por imposiçao do Magnum.
    Ora sendo membro de uma das tunas mais antigas do porto não vejo o porque dessa obrigatoriedade que o Magnum impoe agora aos grupos academicos no porto. Qualquer estudante do ensino superior é livre de entrar para um grupo académico e terá ai de se sujeitar à dinamica interna do grupo para o qual entra (incluindo as praxes que o dito grupo ou tuna tem na sua tradição). Porque é que tem tambem de estar presentes na praxe da faculdade se assim não o quiserem e a sua vontade ser somente a de frequentar um grupo académico?
    Parece-me que se quer arrastar os grupos académicos para a ruina que já se verifica na praxe da academia do Porto devido às mentalidades Senis de quem a está a gerir.
    Quanto ao que é dito no post espero bem que a TEUP aceite o convite pois sao afilhados da Tuna Universitária do Porto e não tem motivo algum para não aceitar. Quanto ao resto das tunas e grupos académicos da UP sugiro que virem as costas ao dito Magnum já que tá mais do que visto que estes trabalham somente para o seu interesse e não ligam nada aos interesses e sucesso das tunas e grupos académicos.

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    1. Magnanimus:

      essas determinações são "de boca" ou saíram em decreto?

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  3. corre o boato que se preparam para invadir o coliseu no sabado com caloirada atrás

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  4. Unknown desculpa dizer-te mas isso só pode ser "boca para o barulho". Então achas que se pode invadir um espectáculo com bilhetes pagos? Se for "invadirem" pagando bilhete de certeza o OUP não se importa, contudo como em qualquer espectáculo estará obrigatoriamente presente as "forças policiais", e se alguém se portar mal é identificado e detido, como em qualquer espectáculo publico. Este País pode estar de rastos mas ainda não é uma qualquer "republica das bananas" onde se pode desrespeitar a lei.

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