21 de outubro de 2012

As Tunas e a Praxe

Um mito recorrente - e com especial relevância actual - é o de que as tunas são praxe académica. Este mito, mesmo quando desfeito, costuma sobreviver pelo caminho alternativo de que, sendo grande parte dos tunos, praxistas, então as tunas passam a estar, também elas, sob alçada da praxe.

É importantíssimo - dada a repetição de casos em que muitos conselhos de veteranos no Porto e até o próprio Magnum Consilium Veteranorum assumiram posturas pouco compatíveis com princípios de autonomia das tunas e demais grupos académicos - promover uma explicação simples que refute o mito que tem suportado essa mesma postura.

Para isso, é relevante aqui recuperar uma intervenção do Dr. Eduardo Coelho (antigo Dux Facultis e Magister da TUP, em finais dos anos 80 e inícios dos 90, co-autor do livro "QVID TUNAE? A Tuna Estudantil em Portugal") sobre esse mesmo assunto e que de seguida se transcreve:

Quer entender que é primeiro praxista e depois tuno? Está no seu direito. Vai por um caminho perigoso, mas faça como entender. E aqui lhe deixo uma série de "primeiro sou":
"Primeiro sou praxista e depois namorado" - e oxalá nunca a sua namorada desagrade ao seu Dux ou ao Magnum... Ou, talvez pior, oxalá nunca agrade...
“Primeiro sou praxista e depois estudante” - comece a responder nos exames só às perguntas de número ímpar...
“Primeiro sou praxista e depois condutor” - comece a conduzir pela esquerda (já que se diz por aí que, em praxe, é tudo com a esquerda) e só ceder prioridade aos elementos do CV da sua faculdade ou do MCV - e comece a perguntar aos outros condutores o que eles são pela praxe, sob palavra de honra.
“Primeiro sou praxista e depois cidadão da República Portuguesa” - declare os deputados anti-praxe, mobilize caloiros para cercar o parlamento e exija ao Presidente da República que vá aos Leões à meia-noite (esta, se calhar, era bem vista). Para esta, pode contar comigo.
“Primeiro sou praxista e depois portista” - como está sob alçada da praxe, no Dragão comece a torcer pelo Benfica (pois é o clube do seu Dux) no meio da claque dos super dragões. Depois explique-lhes que eles pela praxe são bichos e você veterano e que têm de começar a torcer pelo Benfica, e cite-lhes “em praxe não se pensa, obedece-se!”
Portanto, você pode ser praxista e adepto do FCP, praxista e condutor, praxista e namorado, praxista e cidadão, praxista e estudante - e também pode ser praxista e tuno, sem que, por ser praxista, os órgãos de praxe se possam meter na sua vida.
Um jogador de futebol da Académica de Coimbra tem de jogar como der na veneta ao Dux Veteranorum? Essa é boa. E por que não? Porque o futebol não emana da praxe. Houve um grupo de estudantes que resolveu formar uma equipa de futebol à semelhança de outras que já havia por aí. O futebol não passou por isso a ser regulado pela praxe, pois não?
Em 1888 houve um grupo de estudantes que resolveu formar uma tuna à semelhança de outras tunas que já existiam por aí. Os tunos têm de passar agora a obedecer ao Dux Veteranorum? Porquê? Se isso não aconteceu com a equipa de futebol, que não foi nem é um costume exclusivamente universitário, por que razão é diferente com a tuna, que também não foi nem é um costume exclusivamente universitário?
E agora, um pequeno teste:
Complete a frase que se segue, assinalando com uma cruz (X) a opção correcta:
"O futebol NÃO emanou da praxe NEM é uma prática exclusivamente universitária, portanto a praxe NÃO tem nada que regular o futebol. As tunas NÃO emanaram da praxe, NEM são uma prática exclusivamente universitária, portanto a praxe...
1) tem de regular as tunas;
1+1) não tem nada que regular as tunas.”
[Até só usei números ímpares (1+1), para não ir contra a praxe...]
Ou então divirta-se a completar o seguinte axioma:
“X não emana de Y; portanto, Y não regulamenta X”
Várias sugestões:
X=basquete; Y=Vaticano
X=cinema; Y=Federação Portuguesa de Columbofilia;
X=tunas; Y=praxe;
X=arame farpado; Y=Associação Portuguesa da Panificação e Produtos Similares.
Aposto que pensa: "Mas aquelas coisas (ser namorado, condutor, etc.) ou já existiam antes da praxe ou não foram criadas pela praxe, e além disso são questões de consciência, por isso a praxe não tem nada que se meter." E pensa bem.
Mas se eu, usufruindo da minha liberdade de consciência, resolver fundar uma tuna, que tem a praxe que ver com isso? Ou só não há liberdade de consciência quando se trata de tunas?
Diga-me uma tuna que tenha sido criada por um conselho de veteranos: será caso raro, se não mesmo único, se é que há algum exemplo.
Explique-me em que medida é que as tunas são uma emanação da praxe. Eu já provei - com documentos - que não são. As provas estão à sua disposição num livro intitulado “Qvid Tvnae? - a Tuna Estudantil em Portugal.”
Ainda ninguém PROVOU que são, com factos, com documentos. O que ouço é muita gente a DIZER QUE SÃO, mas sem nunca alegarem provas documentais.
E eu digo-lhe porquê: porque pura e simplesmente não há tais provas. E não há porque não pode haver. E não pode haver porque as tunas não emanam nem nunca emanaram da praxe.
Se tudo aquilo que você faz quando está trajado cai imediatamente sob alçada da praxe, então quando conduz trajado está sob alçada da praxe, não do código da estrada (conte essa à GNR).
Se faz um exame trajado, então está sob alçada da praxe. Diga ao seu professor que não lhe pode dar negativa porque, segundo a (invenção que lhe venderam de) praxe, os números têm de ser ímpares. Exija cotação total.
Se vai ao parlamento trajado, então está sob alçada da praxe. Exija aos deputados licenciados que declarem as matrículas que tiveram e obedeça só às leis que tiverem sido aprovadas por deputados que tenham tido um número de inscrições superiores às suas e exija aos restantes que votem como você quer. Explique depois ao juiz, se ele tiver mais matrículas do que você. Se tiver menos do que as suas, ponha-o de quatro no tribunal.
Se estiver a namorar trajado, então está sob a alçada da praxe. Ponha a sua namorada à disposição de qualquer indivíduo que tenha mais matrículas do que as suas, ou deixe de namorar com ela, se assim lhe for exigido.
Ou então, pense um bocadinho melhor no que é primeiro e no que é depois.
Ou não pense, se não lhe apetecer.
Sabe que a praxe não é uma ditadura, ao contrário do que lhe devem ter ensinado. E eu prezo demasiado a liberdade. Eu não puxo brasa à minha sardinha: o que não tolero é que haja quem queira roubar as sardinhas todas - as que pescou, as que não pescou e as que vierem a ser pescadas. E há até quem queira decretar que todo o ser vivente que habite as águas do mar é sardinha - porque em praxe não se pensa, obedece-se, certo?
Se me fiz entender, óptimo. Mas confesso que não tenho grandes esperanças. Como se argumenta contra a falta de argumentos?

2 comentários:

  1. Tou... sem palavras...
    Não defendo que as tunas sejam "administradas" pela praxe. No entanto... no antigamente quando o académico era praxista, não sei que voltas eventualmente querem dar, no entanto, acho que pode ser haver o factor (podiam-se dar bem). O mais esquisito de acontecer, é que trajados, hoje em dia, estamos tanto em tuna como praxe, e se o DUX não for da tuna e me quiser vir praxar quando simplesmente me ausentei da tuna so paa vir buscar agua para o pessoal?! :S
    E ou, posso usar como desculpa o facto de tar em tuna, ou até nao tar, para me esquivar de ser praxado?!

    Estas duas perguntas esbarram-se uma na outra. E decerta forma, deixam pessoas desagradas e/ou até mesmo tristes.

    Acho que poderiam ser dois pontos a falar aqui mesmo neste espaço.
    Mas se eventualmente ja houver resposta, no livro "Qvid Tunae" ... posso sempre compra-lo depois.

    Cumprimentos
    - Elvis

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  2. O DUX da ESTSP chama-se Emanuel Oliveira ?

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