23 de outubro de 2012

Particularidades do uso do Traje

Dos vários mitos que circulam, aqueles que têm que ver com o traje académico são claramente os mais abundantes.

Qualquer pessoa que corra um pouco pela Academia, a partir de contactos que tenha em diferentes cursos e faculdades, perceberá imediatamente que cada um tem a sua "Lei", a sua praxe e a sua explicação sobre determinadas convenções criadas para o traje.

Mas então, porque razão os alunos de uns cursos ou faculdades afiançam e exigem que, por exemplo, a capa deva estar sempre traçada quando se está a praxar e outros não? 
Porque razão uns dizem que não se pode ver as mangas da camisa e outros dizem que se pode?
Porque razão uns dizem que à noite a capa tem de estar sempre traçada e outros não?
Porque razão uns dizem que os caloiros não podem trajar, e outros dizem que podem?

E a lista poderia continuar por aqui fora.
Como distinguir então o certo do errado? 

Se para alguns, o certo é o que o mais velho diz e os mais novos só têm de acenar a cabeça e "comer" o que lhes dão, então, pela lógica do mais velho, nestes casos em que as práticas variam de forma tão gritante de casa para casa, quem está correcto serão os mais antigos. Portanto, Medicina? Ciências? Orfeão? Ou, indo mais atrás, Coimbra?
Imediatamente dirão que não é assim tão simples, e que não é Medicina que necessariamente está mais certa, por ser mais antiga. E correcto. Mas então, o mesmo se aplica para o caso individual: não é por um colega ser mais velho e dizer A, que A passa a estar automaticamente correcto e B passa a estar errado. Então, está visto, que a única maneira de averiguar a correcção tradicional das coisas é, precisamente, investigar e procurar provas concretas.

As respostas às dúvidas nunca podem ser um acéfalo "porque é assim que se faz aqui, e temos de estar todos iguais". Tudo tem uma explicação razoável que se pode e deve procurar. Se às vezes dá trabalho? Sim, dá. Mas se se diz que se gosta de tradição, e se se gosta de a bem prosseguir, então nada deveria custar às pessoas fazer um esforço para distinguir o que será, de facto, tradição do que será invenção relativamente recente.

O problema para a tradição não está tanto em que alguns decidam, por exemplo, andar sempre com as mangas da camisa arregaçadas ou de capa sempre traçada à noite, mas está especialmente quando  estes começam a obrigar que todos os outros assim andem. 

Para qualquer pessoa que invista algum tempo no estudo das tradições académicas, seja pela leitura de alguns autores que registaram as suas passagens pela Faculdade, seja pela visualização de fotografias antigas, seja até por conversa com pessoas da geração que passou pela Universidade nos anos 60 ou 80, imediatamente chegará à conclusão de que muito do que agora se vende como tradição obrigatória é, afinal, de obrigatoriedade recente. 

De facto, e este é um traço não apenas respeitante a particularidades no uso do traje, as coisas há não muito tempo atrás processavam-se duma forma bem mais natural e despreocupada com obrigações mal explicadas que não tivessem precedente histórico.

A explicação terá muito que ver com a própria atitude do estudante em relação ao traje académico. Se durante muito tempo o traje era visto como uma roupa funcional e económica que encaixava perfeitamente no contexto já tradicional e romantizado da imagem do estudante (e que serve para explicar a continuidade generalizada do seu uso já depois da sua obrigatoriedade ter caído), a partir de certa altura o seu uso passou a ser encarado mais como um acto cerimonial do que com um acto corrente e banal do dia-a-dia.

Alguns mitos recorrentes na Academia sobre o uso do traje:

"OS CALOIROS NÃO PODEM TRAJAR"

Nada mais falso. Os caloiros podem e devem trajar.
Antes de mais argumentos, basta apenas verificar uma coisa: no dia em que grande parte das pessoas traja pela primeira vez (para além do dia em que vai fazer a prova à loja de roupa), que é o dia da Monumental Serenata que abre a semana da Queima das Fitas, é-se o quê perante a praxe? Como é óbvio, é-se caloiro.

Portanto, visto está que os caloiros podem trajar, porque já trajam. Sobra apenas a questão se existe um momento certo, durante o tempo em que se é caloiro, em que não se pode estar trajado e se existe outro em que se passa a poder.
Três razões que resolvem o que sobra:
1) Está mais que documentado que, bem até aos meados dos anos 80, os caloiros entravam já na faculdade trajados;
2) Os caloiros que ingressam em tunas e grupos de fado, normalmente trajam logo;
3) Não há nenhum Código da Praxe com o mínimo de relevância tradicional que o mencione.


A origem deste mito é muito provavelmente explicada pelo facto de as actividades de recepção ao caloiro se terem alterado de forma visível nos últimos 20, 25 anos.
O gozo ao caloiro assumiu um estilo em muito a um exercício militar (mais suave), com treino exaustivo de canções e execução sincronizada de coreografias, regularmente pautado com posições "de quatro" e rolamentos em terra/lama que acabam por invariavelmente exigir dos caloiros bastante exercício físico que os irá sujar. A moda pegou de estaca por toda a Academia e, aí, obviamente, a comodidade do traje  nos caloiros constantemente a "encher" e "de quatro" ter-se-á tornado bastante discutível.

Daí, se se tomar em consideração uma certa mudança de mentalidade e atitude que tem ocorrido em relação aos caloiros, em momentos de suposto gozo aos mesmos, por parte de muitos doutores, que encaram a praxe académica e as recepções aos caloiros como um teste, uma recruta, uma selecção natural para os caloiros "merecerem o traje" e "poderem vir a ser doutores" (mitos abordados noutra secção), consegue-se facilmente compreender a fonte desta confusão que ainda teima em existir.


"NÃO SE PODEM VER AS MANGAS DA CAMISA"
Neste ponto nem é preciso escrever muito para o refutar, pelo menos no que diz respeito ao uso comum do traje, por tantas imagens que provam que é invenção recente e, mesmo assim, ainda não generalizada pela Academia.
Será importante apenas salientar que arregaça as mangas quem quer (se tiver calor, por exemplo), e por norma as mangas estão, como em qualquer uniforme, normais. Atente-se que não faz sentido nenhum que, estando frio, uma pessoa tenha de andar de manga arregaçada por exemplo.

Algumas imagens esclarecedoras (redirecionamento para o facebook): 1912 | 1927 | 1945 | 1957 | 1966 | 1983 | 1993 | 1997

A confusão deve, decerto, vir do facto de no Código de Praxe se especificar que, na constituição de trupes, que
"os componentes da trupe deverão esforçar-se para que os punhos da camisa não sejam visíveis. No caso de o serem, qualquer doutor na praxe ou veterano, mesmo à futrica, pode chamar à atenção para esse facto, sem qualquer outra consequência."
Repare-se que apenas se refere a essa observação no contexto de trupes e, mesmo aí, é uma nota de rodapé.


"A CAPA DEVE ESTAR SEMPRE TRAÇADA À NOITE OU QUANDO SE PRAXA"

Outra confusão recorrente.
Sobre a capa traçada, é simples. É obrigatório estar traçada:

1) Em trupe (desfazendo-se automaticamente a trupe se a capa de algum membro se destraçar, excepto se em perseguição de infractor);
2) Numa serenata;
3) No cumprimento de sentenças de um julgamento (excepto os semi-putos, que as deverão ter pela cabeça).

Em tudo o resto é, como se costuma dizer, "à vontade do freguês". Se faz frio à noite, trace-se a capa como é lógico! Se está um calor dos diabos num cortejo, não se trace, obviamente!

Outra leitura sobre este mito também pode ser feita no blog Notas e Melodias, onde também se abordou o tema.


"NÃO SE LAVA A CAPA / BATINA / TRAJE"

Um mito que também já foi abordado num texto do Notas e Melodias e ao qual pouco se pode acrescentar.

Como é óbvio, qualquer peça de roupa se pode e deve lavar. Alguém no seu perfeito juízo pensa que os estudantes que antes se viam presos à obrigatoriedade do uso do traje, não o lavavam? Haja bom senso.

Numa cerimónia oficial da Universidade? Numa actuação em que se seja membro de um grupo de fados? Numa apresentação de tese, por exemplo, em que se queira ir trajado? Vai-se num estado imundo?
Não é preciso pensar muito. Ou é?


RELÓGIOS, PINS E EMBLEMAS

Destes três, também várias confusões surgem, são recorrentes e mais uma vez cada um diz a sua.

Sobre isto, importa recuperar três posts relacionados e extremamente relevantes do blog Notas e Melodias:

"Notas aos Relógios na Praxe"

"Notas sobre a origem dos Pins, Alfinetes e Crachás, na Praxe"

7 comentários:

  1. Em relação ao lavar a capa do traje, discordo totalmente do que foi dito.
    Quando envergo o meu traje, a minha capa preenche todas as minhas memórias. Toda a "sujidade" que voces falam da capa, são apenas lembranças e marcas de memórias de momentos que jamais serão esquecidos.
    Eu, do pouco que sei de praxe, digo com toda a certeza que capas lavadas são praxistas (se é que os posso chamar assim) que não entendem o básico da praxe e muito menos têm o sentimento do envergar o preto e pertencer há grande família denominada PRAXE.

    Saudações Cordeais
    Gabi Basaloco

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  2. Caro Gabi,

    Discorda em que aspecto?
    É a favor da "proibição" de lavar a capa? É que é apenas disso que se trata, de ser "proibido" ou não. Se não quer lavar a sua capa, está totalmente à sua vontade... Da mesma maneira que quem a queira lavar, está na sua liberdade de o fazer.

    Quanto ao resto que tão levianamente alvitra, quer ao colocar em causa sentimentos de pessoas que não conhece de lado nenhum, quer ao inferir que as mesmas não merecerão pertencer À família da praxe (revelando um sectarismo em tudo contraditório com o espírito da verdadeira praxe académica) só confirma precisamente aquilo que o próprio Gabi afirma: que de praxe, percebe pouco... Apesar de no seu entendimento arriscar uma certeza absoluta na matéria, rotulando com isso de ignorantes todos aqueles que, durante décadas de academismo, o precederam.

    Mas isso não é crime, desde que haja humildade. O problema é que, paralelamente a essa sua falta de conhecimento, transporta pensamentos sectários e totalitários que não são dignos de quem enverga capa e batina e muito menos de quem está na praxe académica. Espero sinceramente que um dia não sofra, num qualquer outro contexto que não a praxe académica, sectarismos de outros em relação a si. Pense nisso.

    Saudações

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  3. Caro Gabi Basaloco, ainda vocé não era gente e já eu trajava.
    Ainda vocé mal balbuciava já eu era Dux Veteranorum.
    Por isso, quando opinar sobre terceiros, faça-o conhecendo ao menos o seu trabalho e o seu crédito, pois que têm obra feita e não opinam apena sporque acham ou lohes apetece achar.

    Veja o quão ridículo são os argumentos de quem diz que a sujidade e as nódoas são memórias, como se "medalhas" se tratasse.
    Andar sujo, na sua opinião, ostentar nódoas, fazer gala de andar com um traje sujo, uma capa imunda é sinal de bom praxista?
    Não meu caro,é sinal de falta de brio, de higiene e de respeito pelo traje.

    Andasse vocé com o seu traje imundo há umas quantas décadas atrás e não apenas não entrava numa sala de aula como ainda era chacota dos demais (e sujeito, porventura, a sanção por falta de aprumo e limpeza).

    Uma coisa era, há muitos anos, os trajes andarem puídos e gastos, rotos...outra coia era andar-se sujo.

    Ser asseado é sinal de inteligência. Memórias dos meus tempos de estudante e de tuno são muitas, e de nenhuma nódoa preciso para as recordar.

    Também é dos que acredita no chavão machista que "homem que é homem cheira a cavalo e tem barba de 3 dias"?

    Se está tão convicto do que diz, apresente factos que provem que antigamente não se lavava a capa ou o traje e que isso confere tradição, justifica essa opção.
    Eu poupo-lhe trabalho: não consegue.

    A Praxe, já agora, não é uma família.
    E quanto ao sentimento de "envergar o preto".......... mal sabe vocé o que diz.

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  4. Esperava um dia encontrar e conhecer uma pessoa como você.
    Tenho a minha segunda matricula de faculdade e do que mais gosto é de ouvir e conhecer histórias de origem, especialmente do traje. Mas algo verdadeiro e não aquelas regras estrondosas que impõem no traje, que é meu.

    Conto com mais posts bons como este.

    Cumprimentos
    Mariana Costa

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  5. Boa noite,
    Como orgulhoso e apaixonado praxista, não poderia deixar de comentar este artigo. Se é certo que pouco sei de tradição, tenho de me abrigar na arrogância de afirmar perceber por inteiro o que é amor à praxe, quer em caloiro através do gozo, quer em doutor através tanto da Praxe como do gozo ao caloiro.
    Saúdo, desde já, qualquer Praxista, mais velho ou não, que leia este comentário, porque como a Praxe ensina, o respeito faz-se tanto de baixo para cima como de cima para baixo. No entanto, tenho de defender as minhas crenças e algumas delas entram um pouco em conflito com algumas notas que aqui li. Contudo, entendo o ponto de vista explicado, dado que está perfeita e concisamente argumentado à luz das mais antigas tradições, assim acredito.
    Portanto, para começar, defender o ponto de vista acima partilhado pelo Gabi Basaloco. Entendo que a minha capa é intransmissível e irrecuperável em caso de perda, precisamente pelo cheiro peculiar que tem, a textura que ganhou pelas experiências que com ela vivi, etc. A bem da verdade, não possuo contra-argumento nenhum para o que foi explanado: isto pode ser considerado falta de higiene e brio, é certo. Mas sendo assim, não haveria a "minha" capa, nem a "tua" ou a "sua" capa, nem a capa "dele". Todas as capas, salvo pequenos pormenores, seriam iguais, pelo que não haveria necessidade de se ter "a" capa, mas sim "uma" capa. Compreendo o que dizem, mas honestamente, sempre que contactar com um futuro praxista, vou aconselhar a não lavar a capa. O traje, sim. A capa, não.
    Muito bem, em relação a mangas arregaçadas, relógios, pins e outros adereços, defendo que é assim que estas devem andar e que estes não se devem usar, mas apenas porque foi assim que fui ensinado. Com a apresentação deste texto, tenho de repensar a minha posição e, respeitando e cumprindo na mesma com o que aprendi, aceitar que há quem o faça de forma diferente.
    No que diz respeito à capa traçada à noite, mais uma vez, foi dos ensinamentos que mais vincadamente me foi transmitido, se bem que sei que varia de casa para casa. Ao início, revoltava-me interiormente quando via um praxista trajado de capa ao ombro à noite, mas com o passar do tempo e também com a paciência e compreensão que a própria Praxe me transmitiu, aprendi a tolerar e aceitar que há casas que pensam de maneira diferente. Mais uma vez, não encontro razão lógica a nível de tradição para o que eu cumpro ser o correto, ou vice-versa, mas fui ensinado assim e, não me custando, vou ensinar e cumprir assim.

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  6. (Continuação)
    Por fim, um último tópico no qual discordo a 99+1%!
    Se é certo que o traje é Académico e não Praxístico, isto é, este serve para distinguir o estudante universitário dos restantes cidadãos, e que ninguém na sua plena saúde mental se pode achar no direito de negar o direito de trajar a quem quer que seja, tenho de dizer que, não sendo proibitivo, acho por bem desencorajar os caloiros a usar o traje. Deixo as questões: que piada teria ver um cortejo só de preto e branco? Não será uma das coisas mais bonitas em praxe, durante o cortejo, ver todas aquelas cores misturadas, felizes por completarem uma etapa, a primeira, da vida Universitária? Todos juntos, diferentes, mas todos pelo mesmo fim e com respeito mútuo entre todas as casas. A verdadeira harmonia num melting pot perfeito! Mais, como antigo caloiro, o mais apaixonado de todos no que à minha opinião diz respeito, pedir-me que abandonasse o meu kit era tirar-me uma alegria infinita. E estou certo de que (quase) todos os antigos caloiros partilham desta opinião. O trajar na Monumental Serenata é uma preparação para o futuro e um momento solene, que me parece perfeitamente apropriado para o primeiro uso do traje.
    Para finalizar este tópico, e não querendo ser prepotente, que de resto não sou e é característica que abomino, não será o "traje como recompensa do esforço" algo natural? O "sofrimento" é praxe integral da Praxe que conhecemos, de que são exemplos os sapatos terríveis ou o traçar a capa sob sol abrasador porque um mais velho também o fez. Portanto, creio que os caloiros terem de penar para no final terem o privilégio, que é isso que considero trajar, de usar o traje é recomendável e entendo e defendo completamente. Salvaguardando, mais uma vez, que o seu uso não pode ser vetado a ninguém.
    Por fim, e lamentando a extensão inesperada do comentário, deixo uma dica: a tradição é o que fazemos dela e a Praxe, assim como tudo na vida, deve estar em constante evolução. Assim, acho saudável, e até bonito, que cada casa desenvolva as suas próprias tradições e costumes e imponha as suas próprias regras, desde que nada disso contradiga o propósito da Praxe nos seus primórdios ou desrespeite aquilo que o Magnvm decreta.
    Com as melhores saudações académicas, e congratulando pelo belo artigo, anseio pelo próximo!
    Assino,
    João Noura

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  7. Viva João,

    Convém ter em atenção o seguinte: o problema não está em que haja quem goste de não lavar a capa ou o traje. O problema está em haver quem não goste e OBRIGUE outros a assim proceder. Estão tanto na praxe uns como outros.

    Cumprimentos!

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