6 de setembro de 2013

Entre "Ir" e "Estar", a Tradição abandonar.

por: EDUARDO COELHO

O que dizemos e como dizemos molda completamente o que pensamos.
Se a nossa expressão é errada, então o nosso pensamento é errado. Por sua vez, um pensamento errado produz expressões erradas.

O erro começa na expressão "ir à praxe". A praxe não é uma actividade - como "ir às aulas", "ir à missa" ou "ir ao cinema". Reduz-se, assim, erradamente, "praxe" às actividades mais ou menos "humilhantes" que se realizam à custa dos caloiros. Frequentar essas actividades é, portanto, segundo alguns, "ir à praxe".

Parece pensar-se que existe uma proporcionalidade directa entre "ir à praxe" e "perceber de tradição" - uma proporcionalidade do tipo "quanto mais... tanto mais..." (e, necessariamente, "quanto menos... tanto menos..."). Pondo a coisa por miúdos, "quanto mais se vai à praxe, tanto mais se sabe de tradições" ou "quanto mais se vai à praxe, tanto melhor praxista se é" - e, correlativamente, "quanto menos se vai à praxe, tanto menos se percebe de tradição / tanto pior praxista se é".

Ora se "praxe" é o que se diz ser, então um "praxista" é aquele que vai a essas actividades. Como "sujeito" das "brincadeiras" ou como "objecto" das mesmas? Como "vítima" ou como "carrasco"?

Se é como "vítima", então só os caloiros é que são praxistas. Neste caso, os doutores não estão a ensinar nada aos caloiros, pelo contrário, já que a condição para se ser praxista é, justamente, o ser-se caloiro.
Se é como "carrasco", então só os doutores é que são praxistas. Mais abaixo se verá por que razão isto é profundamente errado.
Se tanto faz, então os caloiros são tão praxistas como os doutores. Então os doutores não estão a ensinar os caloiros a serem futuros praxistas.

Isto seria assim SE o sentido em que as pessoas que empregam "praxe" (na expressão "ir à praxe") estivesse correcto.
NÃO está.

A praxe é o conjunto de regras que regem as relações entre os estudantes de uma academia, entre estes e a comunidade geral em que se inserem. Sendo assim, não se "vai à praxe" - pois é tão absurdo como dizer-se que se "vai à lei".

E param por aqui as semelhanças entre a Lei e a Praxe.

Enquanto quer eu queira, quer não, a Lei tem poder sobre mim (desrespeito-a, vou preso), a Praxe não tem qualquer poder sobre quem a não aceita. Mais do que isso: a Praxe não tem qualquer poder sobre quem não está EM praxe (não "na" praxe).

E para se estar EM praxe, TEM DE se estar trajado.
Quem não está trajado, não está em Praxe. No entanto, quem está trajado pode ou não estar em Praxe.
Explico: usar o traje académico (e refiro-me apenas à capa e batina) é um direito universal, consagrado pela legislação portuguesa, transversal a todos os estudantes a partir do ensino secundário. Não é um traje de praxe, mas um uniforme de estudante.

Assim sendo, podemos afirmar:
todo o praxista usa o traje, mas nem todo o que usa o traje é praxista;
todo o que está em praxe tem de estar trajado, mas nem todo o que está trajado tem de estar em Praxe.

Além do uso do traje, é necssário aceitar e conhecer o conjunto de usos e costumes tradicionalmente observados entre os estudantes de uma determinada academia - tanto no que é agradável como no que não é tão agradável. É isto o que significa "Dura Praxis, sed Praxis" - a Praxe é difícil/severa/exigente, mas é a Praxe.

E é aqui que entra a tradição: é a tradição que enforma a Praxe, não o contrário. A Praxe resultou da uniformização das "leis" que regiam as relações entre os académicos, a forma de usar o traje, as circunstâncias em que o mesmo se usa, os direitos e os deveres entre graus hierárquicos, o tipo de penalidades/castigos a infligir em determinadas circunstâncias, etc. Mas também das protecções e isenções a esses castigos - impedindo abusos e "vinganças".

Portanto, faz tanto parte da Praxe ser "praxado" como não o ser.
A Praxe vem da tradição, mas a tradição não vem da Praxe.

Por isso, para se ser um bom praxista é condição "sine qua non" conhecer a tradição. Sendo assim, as actividades de recepção ao caloiro devem servir para ensinar a tradição, para se compreender a praxe.

Essa "praxe" (brincadeiras, blá, blá, blá) de que tanto (erradamente) se fala ensina exactamente o quê?

Se um fulano participar em todas as actividades propostas durante o ano de caloiro e depois nunca mais na sua vida académica participar seja no que for (nem como "carrasco", nem como "vítima") ficou a saber o que é "Praxe" ou sequer qual é a "tradição académica"?
Não.

Então, a transmissão da tradição (e a Praxe, por consequência) consiste num processo de aprendizagem/vivência "ao longo da vida", que não se esgota nem pode esgotar no 1.º ano. Mais, não há "matéria" de 1.º ano que seja necessário saber para se passar para o 2.º - e por aí adiante.

(Quase) Nada daquilo a que hoje em dia se dá o nome de "praxe" é Praxe, pois não assenta em tradição rigorosamente nenhuma, mas apenas em invenções de 3/4 de mês de pessoas que não fazem a mínima ideia do que andam a fazer.

Será, se quisermos, a tradição dessas pessoas;
Não é certamente, A Tradição dos estudantes.

3 comentários:

  1. Onde se lê: "A praxe conduziu à uniformização das "leis" que regiam as relações entre os académicos..."

    Deve ler-se "A praxe RESULTA da uniformização das "leis" que regiam as relações entre os académicos..."

    ResponderEliminar
  2. "...usar o traje académico (e refiro-me apenas à capa e batina) é um direito universal, consagrado pela legislação portuguesa, transversal a todos os estudantes a partir do ensino secundário. Não é um traje de praxe, mas um uniforme de estudante. Assim sendo, podemos afirmar:
    todo o praxista usa o traje, mas nem todo o que usa o traje é praxista;
    todo o que está em praxe tem de estar trajado, mas nem todo o que está trajado tem de estar em Praxe."

    Este é provavelmente um dos maiores erros da nossa Academia (Porto). Também como muitos outros, cresci com esta regra, o Traje é só para Praxistas! É ERRADO! Não é assim e a história e a tradição comprova-o!

    O Traje não é só para Praxistas! O Traje é para todo o estudante universitário. A Praxe é que é só para quem a quer abraçar. Simples!

    Mas para não se perder a tradição ou ter-se controle sobre a Praxe, não sei, criou-se e difundiu-se este mito completamente errado.

    Eu acho que as pessoas deveriam olhar para a Praxis como nos Estados Unidos as Fraternidades são encaradas. Só entram nas Fraternidades quem quer. Ninguém é obrigado. Há praxes e castigos (bem mais duros e violentos do que na nossa Praxis) mas depois há recompensas. Cria-se uma espécie de amizade e fraternidade completamente diferentes... mais ou menos parecida como a que existe nas tunas (só que sem a parte divertida que é a música).

    Mas por alguma razão (no Porto) alguém prefere distorcer a verdade e continuar a nesse faz de conta...

    ResponderEliminar
  3. Julgo que haverá que distinguir algo que, a meu ver, pode causar equívocos.
    Um estdante qe traje passa, de imediato, a estar NA/EM Praxe, mesmo que isso se reduza à observância da etiqueta que determina como se traja. Da Praxe fazem parte os ritos, protocolos e etiqueta associada.

    Por outro lado, também o termo Praxe pode (de certo modo) ser sinónimo Tradição Académica, distingundo-o de "praxes" (que conotamos com ritos/actividades de recepção aos caloiros.

    De resto, parabéns pelo magnífico texto.

    WB

    ResponderEliminar