13 de fevereiro de 2014

Reflexões que a má-fama mediática deve inspirar

Os tempos recentes de polémica têm testemunhado, e bem, uma reacção generalizada de repúdio em relação a práticas degradantes e desenraizadas de propósito praxístico.

Importa, no entanto, reflectirmos se o repúdio tem sido suficiente para barrar atropelos ou se apenas tem servido como reacção extemporânea de varrimento de poeira para baixo do tapete.

Não será esta a altura para que se tentem acabar de vez com as "inventonas" e práticas do costume que descaracterizam a a Praxe e aproximam de uma seita?
- Problemas de reconhecimento de matrículas de outras instituições estão praticamente generalizados pela Academia, sendo especialmente recorrentes entre casas do IPP como a ESE ou o ISCAP. 
- Conceitos de "reprovação" ou "expulsão" de caloiros continuam a fazer escola por diversas instituições e a atribuição de critérios de assiduidade estão infelizmente generalizados. 
- Casos de ostracismo e perseguição com maior ou menor gravidade promovidos ao abrigo da Praxe ocorrem ou ocorreram em diversas casas da Academia numa lista longa onde figuram nomes como ISMAI, FEUP, FMDUP, FLUP, UPT, UCP (entre outras) e ocorrem por vezes com complacência (quando não promoção própria) do MCV.

Até quando?
Não será esta a altura para uma introspecção sincera e acções consequentes?
Ou será mais uma oportunidade perdida com reacções militantes e extremadas de "defesa de damas"?
Mais uma poeirada varrida para debaixo do tapete?
Manus Manum Lavat?


Importa aqui transcrever a opinião do João Caramalho Domingues sobre o mesmo assunto:

"Parece que sou dos poucos portugueses que não sabe o que se passou na praia do Meco. Por isso, choca-me a morte de seis jovens, mas não me choca particularmente a sua associação a rituais de praxe: não sei se foram criminosamente mandados enfrentar a fúria das ondas, ou se só estavam, todos, irresponsavelmente, demasiado perto do mar (ou alguma outra hipótese). Muitos de nós vimos ou soubemos de actos estupidamente irresponsáveis cometidos por adolescentes (alguns, adolescentes de vinte e tal anos, ou mais...) que parecem julgar-se imortais. Habitualmente, sem qualquer relação com praxe.

Não, nisto, o que me choca e que está relacionado com praxe são os comportamentos tipo seita da Comissão da Lusófona: retiros de doutrinação com relatórios detalhados, análises de personalidade, testes à fidelidade incondicional. (Documentados numa reportagem da TVI: http://www.tvi24.iol.pt/videos/video/14069254/1; com os tiques sensacionalistas da música de fundo e do exagero da entrevista aos pobres pais, mas não acredito que os documentos sejam falsificados.) Isto é praxe ou a Igreja da Cientologia?

Dou comigo a pensar se isto será uma evolução "natural" da ideia, muito frequente, de que a Praxe é uma forma de vida, um conjunto de valores, entre os quais a hierarquia é fundamental. Uma evolução em direcção ao fanatismo, mas ainda assim linear. Não cometo o erro de pensar que toda a praxe actual é fanática ou vai nessa direcção, mas já soube de tanto exagero (já não me refiro a exageros físicos, mas por exemplo à aceitação da hierarquia praxística fora de contextos minimamente aceitáveis) que temo que muita da praxe actual, não só na Lusófona, não só em Lisboa, esteja já perfeitamente dentro do fanatismo.

Por isto, gostaria de dizer algumas coisas básicas muito claramente, invocando 10 anos de praxista activo (mais 14 de jubilado, observador mais ou menos distante), quatro anos a usar capa e batina todos os dias de aulas, cinco anos de membro activo do Conselho de Veteranos da FCUP, um ano apenas (e já foi demais) de dux:

a praxe tem de ser uma brincadeira;
a praxe levada muito a sério é perigosa;
os valores principais da praxe têm de ser a solidariedade e o bom-senso;
a hierarquia da praxe tem de ser apenas um meio, submetido aos valores principais e a limites bem definidos, nunca um fim.

Um sistema praxístico que viole estes princípios básicos deve ser abolido. A bem das tradições académicas e a bem da praxe. E a bem da sociedade.

Praxem. Sejam praxados. Praxem-se. Mas lembrem-se que muito mais do que caloiros, fitados ou veteranos são pessoas. E se não têm uma vida para além da praxe, por favor arranjem-na. A bem da praxe."

1 comentário:

  1. no iscap não corresponde á verdade:

    - Problemas de reconhecimento de matrículas de outras instituições estão praticamente generalizados pela Academia, sendo especialmente recorrentes entre casas do IPP como a ESE ou o ISCAP.

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