19 de dezembro de 2014

Abertura de circuito

Quando se argumenta o pouco cabimento que tem organizarem-se 'praxes' (gozos e mobilizações de caloiros ou doutores) durante o ano inteiro, uma vez (ou mais) por semana, o contra-argumento é quase sempre o mesmo: que grande parte dos caloiros/doutores/estudantes está-se borrifando para as sessões de gozo ao caloiro/praxe/tradição e que, portanto, importa 'ensinar' correctamente e, se houver quem se canse e se afaste, melhor, porque assim ficam apenas os 'melhores'. 

Conceda-se, para já, apenas no óbvio: que existe claramente uma falta de interesse generalizada pela adesão à praxe/tradição académica.

Certo. 
Então, como resolver?
Hipóteses:
1) Perceber o que se anda a fazer de tão fraco, tão pouco original e tão pouco cativante e tentar mudar;
2) Insistir no mesmo mas começar a tornar as actividades de carácter 'obrigatório';

Se a hipótese escolhida for a 2) e se, ainda assim, houver uma maioria de supostos insolentes que não cumpram com o carácter 'obrigatório', o que fazer?
1) Duvidar do rumo;
2) Começar a estabelecer proibições de uso de traje, 'reprovações' de caloiros, inibições de uso correcto de hierarquia, declarações de personas non gratas, etc.

Se a hipótese escolhida for a 2) e se, ainda assim, houver uma maioria de supostos insolentes que andam a trajar e a viver académica e praxísticamente fora do "circuito", o que fazer?
1) Duvidar do rumo;
2) Espalhar as regras de controlo a demais grupos académicos (tunas e afins);

Se a hipótese escolhida for a 2 e se, ainda assim, haja quem não se submeta, o que fazer?
1) Duvidar do rumo;
2) Purgar e isolar todo o estudante ou grupo que não se submeta ao conceito de praxe que se estabeleceu;

De forma resumida e simplista, eis a história lógica de grande parte das 'praxes' que hoje em dia encontramos por várias instituições de ensino superior da Academia do Porto.

Um desinteresse generalizado pela adesão à praxe académica tem como única solução a desmistificação da mesma através de mais abertura, originalidade e espontaneidade.

Tentar manter os estudantes interessados através de regimes assentes em guiões e horários estabelecidos embaraça a praxe, descaracterizando-a. 
Não raramente esta tentativa degenera em regimes de frequências a (supostas) sessões de gozo ou de contínuos atropelamentos de normas tradicionais de índole hierárquica ou do uso do traje. A consequência é a visível: a de uma praxe em circuito praticamente fechado, eminentemente elitista e de cariz profundamente militar e militante.

Impera, por isso, devolver à praxe académica o seu sentido auto-regulador e meritocrático, onde a hierarquia é complementada pelo reconhecimento - recíproco e livre - do espírito e talento de cada um.

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