25 de fevereiro de 2015

100 anos de Aureliano da Fonseca

Completa hoje 100 anos o Professor Doutor Aureliano da Fonseca, vulto de referência da história académica portuense.

Aureliano da Fonseca fez parte da geração de estudantes que em 1937 decidiram reavivar o Orfeão Universitário do Porto. Em conjunto com Paulo Pombo, foi um dos compositores do famosíssimo tema "Amores de Estudante", primeiramente tocado pela então Orquestra de Tangos do Orfeão Universitário do Porto e mais tarde adaptado pela Tuna Universitária do Porto.
Licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 1940, tendo sido igualmente docente da mesma entre 1955 e 1977, concluindo o seu doutoramento durante esse período (1960). Prosseguiu a sua actividade na Clínica de Dermatologia e Venereologia do Hospital Escolar de S. João.

Ao longo de quase oitenta anos, Aureliano da Fonseca foi sempre uma figura acarinhada pelas sucessivas gerações de orfeonistas que nele foram encontrando uma referência sempre amiga, sempre cavalheiresca e sempre com uma palavra humana que exorta à mais elevada reflexão.

Como homenagem, a Associação dos Antigos Orfeonistas da Universidade do Porto em conjunto com o Orfeão Universitário do Porto organizam em sua honra uma Missa Solene (dia 28 Fevereiro, às 17h30, na Igreja do Foco) e uma Sessão Solene na Reitoria da Universidade do Porto (dia 6 Março, às 18h). 
Duas oportunidades para toda a Academia se poder juntar em celebração e reconhecimento de uma personalidade de assinalável valor artístico e humano.


Para os mais desconhecedores, recupera-se um pouco da história dos "Amores" deixada em entrevista do próprio por ocasião dos 100 anos da Universidade do Porto:

Como surgiram o Orfeão e os “Amores de Estudante” neste percurso?

Em 1937, devendo celebrar-se o Centenário da Academia Politécnica e da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, transformadas na Universidade do Porto e Faculdade de Medicina em 1911, um grupo de estu­dantes decidiu reviver o Orfeão Universitário do Porto.

A ideia, aceite com entusiasmo, foi materializada em escassas semanas, reu­nindo-se cerca de centena e meia de vozes vindos das quatro Faculdades na época existentes (Medicina, Engenharia, Ciências e Farmácia), e sem dificuldade conseguida a dedicada cooperação do Maestro Afonso Valentim. Concomitantemente, Tiago Ferreira (estudante de Medicina) e Paulo Pombo (estudante de Engenharia), exaltaram a reorganização da Tuna Universitária, com os es­tudantes que das quatro Faculdades sabiam tocar, pouco que fosse, qualquer instrumento musical. Em breve éramos 34, sendo 14 de Medicina, 13 de Engenharia, quatro de Ciências e três de Farmácia. Ao mesmo tempo, criou-se um Grupo Cénico, sob a orientação de Athayde Perry.

A Récita Inaugural de Gala, de todos os "conjuntos académicos" realizou-se no Teatro Rivoli, a ter êxito por muito tempo rememorado. Seguiram-se outras récitas, valorizadas com fados e guitarradas (gemidas e choradinhas, capazes de fazerem lacrimejar uma sogra), e também canções e "charges" (a co­nhecidas pessoas do meio académico, teatral e outras figuras em destaque no nosso meio, etc., etc., ou as mais formidáveis piadas que até hoje foram dadas à luz... eléc­trica nos Quadros de Conjunto intitula­dos: «No Reino da Folia», «Dois dedos de cavaco» e «Magister Dixit»). E em dado momento (1939) sur­giu o Quinteto Algarvio (importado directamente da região pelas vias competentes.

A criação "artística" a mais destacar-se foi, porém, a Orquestra de Tangos. Esta Orquestra, constituída por oito elementos, tocando os mais afamados tangos argentinos gardelianos, a despeito das sombras negras de guerra, simbolizara, entre os jovens, o génio romântico da música ligeira daquele tempo.

De sucesso em sucesso, em dado momento, surgiu a vontade de termos um tango-canção, canção que fosse nossa. Com a ideia a fervilhar, a música surgindo-me em momento feliz, de seguida, com Paulo Pombo, num café (Café Monumental, na Avenida dos Aliados, há muito desaparecido), e interrogámo-nos sobre o que era ser estudante, o que seria ser jovem e o que era ser tuno?! Ser estudante seria, apenas, aquele que estuda e porventura tem avidez de conhecimento, de sabedoria?! Querer saber não é atributo da criança como do jovem, e até do adulto que jovem continue a ser?! Deste modo pensando, seria estudante quem mantivesse o desejo de saber e com o saber tendo espírito de juventude! E ser jovem não seria ser idealista e acreditar em efémeras ilusões?! E nessas efémeras ilusões não estão os seus amores?! Assim deduzindo, naturalmente surgiu o nome Amores de Estudante.

A letra, feita por Paulo Pombo, diz o que então pensámos e como naquele tempo a nós próprios nos vimos:

São como as rosas dum dia                           Os Amores de Estudante
os Amores de Estudante                                são franjas de ondas do mar


O tango-canção foi pela primeira vez tocado no Teatro de Carlos Alberto no dia 2 de Janeiro de 1938. A terminar, com frenéticas palmas, o público exigiu repetição e repetição, que levantou a plateia. Desde então, os Amores de Estudante não mais deixaram de ser tocados e cantados.


1 comentário:

  1. Sou nascido em Coimbra, igualmente uma cidade universitária e desde cedo na minha juventude ouvi na rádio e falar aos meus tios e avós dessa célebre canção que vi a saber ser da cidade do Porto.

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