7 de abril de 2015

Mulheres em grupos de fado académico

A polémica instalou-se recentemente no seio da Faculdade de Ciências, onde o respectivo grupo de fados e guitarradas passou a integrar dois elementos do sexo feminino.

A discussão em torno deste tema tem todo o interesse, podendo ser abordada de diversos pontos de vista que poderão por vezes ser conflituosos: tradição, autonomia de grupos académicos, evolução, justificação artística, adaptação aos tempos, etc.

É de facto tradicional que os estudantes que se dedicam ao fado de estilo coimbrão sejam de sexo masculino, sendo que tal evidência pode encontrar explicação em duas circunstâncias históricas:

1) a frequência esmagadora de homens no Ensino Superior;
2) a serenata como um acto (relativamente habitual) de cortejar raparigas.

Ambas as circunstâncias merecem análise adequada.

Primeiro ponto:
De facto, o Ensino Superior português, já à semelhança da realidade demográfica do país, apresenta nas suas fileiras mais mulheres do que homens. É por isso perfeitamente natural que a mulher se vá incluindo onde antes não se incluía por mera ausência de presença assinalável. É disto exemplo a adesão à capa e batina, a agrupamentos tuneris ou à praxe académica. Neste aspecto, os grupos de fado e as posições de Dux são, no universo académico, exemplos raros de resiliência à frequência feminina.
O argumento de impossibilidade tradicional de mulheres tomarem parte em grupos de fado coimbrão, quando baseado simplesmente no facto de estes terem sido sempre ocupação masculina, é por isso facilmente refutável pela observação simples da evolução tradicional (neste caso, paralela à evolução social) como naturalmente mais inclusiva da mulher.

Segundo ponto:
A serenata já não é um acto habitual de cortejar raparigas.
No máximo, quando de forma extremamente pontual vai sendo usada com essa finalidade, encarna sempre um espírito de reconstituição histórica que lhe confere um manifesto anacronismo. De facto, hoje em dia, o processo de cortejar em pouco ou nada encontra paralelo com o passado: as mulheres já não são vultos quase inacessíveis sujeitas à autoridade quase absoluta dos pais e, por isso, as suas janelas e o cobertor da noite já não são o ambiente providencial para se comunicar e expressar sentimentos amorosos através de canção. Além disso, o cortejamento já nem sequer é monopólio do homem: também elas cortejam e declaram o seu amor, também elas (desde logo em tunas) o vão fazendo avulso numa forma musicada. A própria realidade heterossexual está, hoje em dia, longe de ser a única realidade presente nas dinâmicas amorosas do ambiente universitário. É por demais evidente que os tempos mudaram e a tradição não é imutável. Pelo contrário. Acompanha os tempos, sem imposição, sem decreto, com adesão voluntária e eventual massificação da praxis estabelecida.

Último ponto:
Independentemente do explanado nos anteriores, importa recordar e reforçar sempre que em qualquer grupo académico manda, sobretudo, quem lá está. Se o grupo de xadrez, a equipa de futebol, a tuna ou o grupo de fados quer admitir elementos do sexo feminino, apenas a eles compete essa decisão em liberdade. Como deve ser igualmente respeitada a liberdade dos grupos que pretendam ser exclusivamente masculinos, femininos ou boavisteiros. Nenhuma entidade externa tem o poder de se imiscuir em questões de organização interna. Essas entidades terão, no máximo, a sua liberdade de poder/querer convidar tais grupos para eventos que eventualmente organizem. Nada mais.

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