16 de junho de 2015

Fado de Coimbra / Fado Académico

por Eduardo Coelho
inicialmente publicado no grupo "Tradições Académicas & Praxe"


Há duas asserções igualmente indemonstráveis:

1. O estilo musical de que falamos SÓ podia ter nascido em Coimbra.
2. O estilo musical de que falamos podia ter nascido noutro local qualquer.

Entre elas, há uma realidade insofismável, inegável e tão verificável e presente e objectiva que praticamente não precisa de ser enunciada: podendo ou não ter nascido noutro lado qualquer, foi efectivamente em Coimbra que nasceu.


É correcto, ou há nisso alguma propriedade, chamar-se “fado académico” ao “fado de Coimbra”?

Vamos desde já àquela que é a questão de fundo: o “fado de Coimbra” é “de Coimbra” no mesmo sentido em que os “pastéis de Tentúgal” são “de Tentúgal”, ou o “queijo da Serra” é “da Serra” ou o “leitão da Bairrada” é “da Bairrada”?

Para isto ser verdade, é necessário, a meu ver, que se verifiquem pelo menos estas duas condições:

1. que o produto cultural em causa seja oriundo e se tenha desenvolvido a partir do fundo anónimo da população autóctone da região em causa;

2. que seja a) produzido de forma consistente e ao longo de sucessivas gerações da população autóctone da cidade/região, b) segundo processos próprios da região, o que lhe confere um carácter único face a produtos congéneres – ou até mesmo carácter de exclusividade.

No caso dos pastéis, do queijo ou do leitão, verificam-se ambas as condições? Sem ser especialista em gastronomia, diria que sim.

E será que, no caso do fado, se verificam as duas condições?

Vejamos caso a caso.


1. O “fado de Coimbra” é oriundo do fundo anónimo da população autóctone?

Há quem diga que sim. Ora isto implica que os “filhotes”, os futricas de Coimbra (admitamos uma zona envolvente de 10 km de raio), desenvolveram uma forma peculiar de canto, com características únicas ou facilmente identificáveis como exclusivas ou pelo menos muito particulares da cidade/região envolvente. Não seria de estranhar (seria até o mais normal) que este hipotético tipo de canto fosse transversal a toda a população, mulheres e crianças incluídas, que a aprenderiam de forma mais ou menos espontânea com os pais, que já a haviam aprendido dos avós (e assim sucessivamente).

Tanto quanto conheço, nem mulheres nem crianças cantam nada de semelhante ao fado “de Coimbra”.

Poderemos estar perante algo de semelhante aos pauliteiros de Miranda – cujos “Lhaços”, pelo menos até há uma geração atrás, eram dançados exclusivamente por homens? 

Pode ser. Tal como há cantares exclusivamente femininos – como os cantares de Maçadeiras na zona de Idanha-a-Nova (porventura em razão de a profissão ser exclusivamente feminina) – pode ser que em Coimbra se tenha desenvolvido um tipo de canto (a que mais tarde se veio a chamar “fado”) exclusivamente masculino. Pode ser.

Se o há/houve, faltam provas documentais (registos sonoros, partituras, etc.) que o comprovem de forma absolutamente inequívoca – e que, mais ainda, liguem esses tais hipotéticos cantares exclusivamente masculinos ao que actualmente se designa por “canção de Coimbra” – da qual o fado será apenas uma possibilidade de expressão.

[NOTA: A FALTA DE PROVAS NÃO É, EM SI, PROVA de que tais (hipotéticos) cantos não tenham existido. É apenas isso: falta de prova. Temos de ser intelectualmente honestos até este ponto.]

NÃO PARECE, pois, que o fado “de Coimbra” seja o resultado da evolução a partir de uma forma de canto que teve origem no fundo anónimo da população autóctone de Coimbra (cidade/região).

ATÉ MELHOR PROVA, não se pode dizer, então, que este tipo de fado seja “de Coimbra” na mesma medida em que os pastéis são “de Tentúgal”, o queijo “da Serra” ou o leitão “da Bairrada”.


2. Será que o “fado de Coimbra” é a) produzido de forma consistente e ao longo de sucessivas gerações da população da cidade/região b) segundo processos próprios da região, o que lhe confere um carácter único face a produtos congéneres – ou até mesmo carácter de exclusividade?

a) É produzido de forma consistente e ao longo de sucessivas gerações? – sim senhor. De sucessivas gerações da população autóctone da cidade/região? Não senhor.

Naturalmente, ACTUALMENTE é arriscado fazer esta afirmação. Hoje em dia, Coimbra possui vida própria que vai muito além da Universidade.

Mas sempre foi assim? Não. “Grosso modo”, até ao fim do 1.º terço do séc. XX, Coimbra era a Universidade, dela dependendo em absoluto. Durante 9 meses vivia e prosperava à sombra da população universitária, num fenómeno inverso ao de estâncias balneares como a Figueira da Foz ou a Póvoa de Varzim, que prosperavam durante os 3 meses de Verão.

Quando começa a surgir e ganha expressão no “Japão” o “fado de Coimbra” (acreditemos no mito de que foi o “Hilário” quem deu o mote para o surgimento deste tipo de fado – cerca de 1900, mais ano menos década), era assim: uma população autóctone que servia para servir (passe a redundância) a Universidade e os seus interesses – lavadeiras, cozinheiras, moços de recados, arrendadores, impressores, livreiros, arrieiros, hoteleiros, barbeiros e, sim, juízes, funcionários públicos, prestamistas (muitos e arruinados), padres, aguadeiros, carrejões (quem tiver paciência que continue)…

Esta população (progressivamente menos autóctone) continuava a produzir o produto cultural de forma consistente (se é que alguma vez o produziu) e ao longo se sucessivas gerações?

Se sim (se continuava a “produzir” fado) tenho muita dificuldade em compreender que António Brojo tenha afirmado que em 1950 (mais ano menos ano) não houvesse em Coimbra quem ensinasse a cantar o fado. Se era ou alguma vez foi um produto genuinamente emanado do fundo anónimo da população autóctone, teremos forçosamente de concluir que algures no processo alguma coisa se perdeu.

Em 1900 (a acreditar que Augusto Hilário dá a pedra de toque fundacional desse canto, elevando-o da populaça anónima e emprestando-lhe o prestígio da Academia), o fado seria praticado uniformemente pela população “popular” de Coimbra. Em 1950, já não o era, uma vez que não havia quem o ensinasse – sendo preciso recorrer a gravações da chamada “geração de Ouro” (Menano e Bettencourt) e a discos de Artur Paredes. Excepções: um barbeiro que aparentemente ensinava a tocar guitarra e um cantor que conseguia imitar os diferentes estilos dos cantores da tal geração.

De entre os cantores referidos, nem um só “futrica” (já nem falo de mulheres).

Não se pode, então, afirmar que o “produto” fosse produzido ao longo de sucessivas gerações da população autóctone da cidade/região.


Resta a segunda parte desta segunda questão:

b) será que o “fado de Coimbra” era “produzido” segundo processos próprios da região, o que lhe confere um carácter único face a produtos congéneres – ou até mesmo carácter de exclusividade?

Que componentes entram na “produção” deste produto cultural? Uma melodia, sobre a qual se canta uma letra, acompanhada de instrumentos.

Destas três componentes, ou são todas características e exclusivas desta região, ou apenas duas delas ou apenas uma delas.

Será a letra? 

A letra pode subdividir-se em tema e estrutura estrófica.

Não há dúvida de que a nível temático a esmagadora maioria dos fados (excluo aqui as restantes manifestações da chamada “canção de Coimbra” – nomeadamente as baladas) são temas de amor. Contêm, alguns deles, referências geográficas a Coimbra (cidade e região envolvente) – Choupal, Igreja de S. Cruz, Mondego, Lapa, Sé - , referências culturais – tricanas – ou académicas – capas, cabra, estudante, torre… Nem outra coisa seria de esperar

Outro grande bloco temático é a saudade – do amor ausente, da vida de estudante, da terra natal – e até mesmo de Coimbra na hora da despedida.

Ora nem o amor nem a saudade são exclusivas (de forma nenhuma) da cidade ou região. Pelo lado da hora da despedida, parece no mínimo estranho que a população autóctone da região entoasse baladas de despedida à cidade onde nasceu e continua a morar.

Será a estrutura estrófica? Igualmente na sua maioria, as letras dos fados são compostas em quadras de redondilha maior (sete sílabas métricas). Já dizia o Menano no “Fado Hespanhol”: «Gosto de cantar o fado / Que o fado canta-se bem / É dizer em duas quadras / A vida que a gente tem.» Nem a quadra nem a redondilha menor são exclusivas ou típicas da cidade ou região.

Portanto, nem pelo tema (geral) nem pela estrutura estrófica o fado é “de Coimbra”. É-o, sim, no que diz respeito às REFERÊNCIAS À VIDA ACADÉMICA, que não existia (na mesma proporção nem com os mesmos referentes) em mais lado nenhum do país.


Será que os instrumentos que acompanham são ou eram característicos da cidade/região?

A viola (violão), não, certamente.

E a guitarra portuguesa? Seja Pedro Caldeira Cabral quem no-lo ensine:

«Como já vimos, a Guitarra Portuguesa na sua fase mais recente, renasce com a associação ao Fado (…) A partir de ca. de 1870 É TAMBÉM INTRODUZIDA NO MEIO ESTUDANTIL UNIVERSITARIO DE COIMBRA, DO QUAL AINDA HOJE NÃO SE DISSOCIA.”
(CABRAL, Pedro C., “Guitarra Portuguesa”, in. OLIVEIRA, Ernesto V. de, “Instrumentos Musicais Populares Portugueses”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2000, pp. 198-199 – 1.ª ed. 1964).

Assim, nem pela temática, nem pela estrutura estrófica nem pelos instrumentos que o acompanham o fado é “de Coimbra” (como os pastéis, etc.) – a não ser pelas referências a uma vida estudantil que não se vivia em mais lado nenhum do país (nem do mundo, já agora). E, como é fácil de constatar, mesmo estas referências são residuais no conjunto do repertório.

Mas será que a técnica utilizada pelos guitarristas de Coimbra é um vestígio de uma forma própria de tocar algum instrumento da região – digamos, da viola toeira coimbrã?

Um instrumento de cordas tem um encordoamento, uma afinação e uma técnica.

Vejamos o que nos diz Ernesto Veiga de Oliveira sobre a viola toeira de Coimbra (op. cit., p 167):

«O encordoamento [das violas portuguesas] é de cinco ordens de cordas metálicas todas duplas nas braguesas, amarantinas, beiroas e campaniças e, NAS TOEIRAS COIMBRÃS, TRIPLAS NAS DUAS ÚLTIMAS ORDENS [as mais graves], E DUPLAS NAS TRÊS PRIMEIRAS [as mais agudas]. (…) Como dissemos, a viola descrita EM 1789 por Manuel Paixão Ribeiro na “Nova Arte da Viola” era também de doze cravelhas com um encordoamento – E DE RESTO TAMBÉM A FORMA E AFINAÇÃO [lá – ré – sol – si – mi (grave/agudo)] -, CORRESPONDENTES À DA ACTUAL [1964] TOEIRA COIMBRÃ. (…) Paixão Ribeiro é de Coimbra e refere-se talvez à viola coimbrã do seu tempo, que se terá mantido inalterável até aos nossos dias.»

Chamo a atenção para o “talvez” e o “terá mantido” – ambos a denotarem uma conclusão possível ou provável – não definitiva. Pode, portanto, dar-se o caso de Paixão Ribeiro não estar a referir-se à viola coimbrã e de esta ter sofrido alterações desde 1789 até meados do século XX. O Autor não se inclina para esta possibilidade.

Quanto às técnicas, há o ponteado (nota por nota), o rasgado (acordes) e o percutido (os tocadores faziam rasgado e davam toques com os nós dos dedos no tampo, a marcar o ritmo). Ora o ponteado e o rasgado são técnicas comuns a todas as violas. O percutido parece ser o único verdadeiramente autóctone. Há até uma guitarrada (penso que de Brojo e Portugal) em que a VIOLA (não a guitarra) marca o ritmo no tampo, imitando um bombo popular. Será uma homenagem aos tocadores da região? Será uma simples Coincidência?

Assim, nem pela letra nem pelos instrumentos o fado se pode dizer “de Coimbra” – a não ser com a ressalva das referências à vida estudantil – de estudante que, na sua esmagadora maioria não eram “de Coimbra”.

O que resta, então? Será pelo facto de as frases melódicas ou certas cadências, serem características da região? Será que há um estilo interpretativo característico da região – praticado e transmitido de geração em geração da população autóctone de Coimbra (cidade e região)? A resposta é, mais uma vez, negativa.

Recapitulando:

A letra (temática e estrutura estrófica) não é autóctone de Coimbra.
A estrutura melódica e harmónica não são autóctones de Coimbra.
O estilo interpretativo não será certamente resultado/evolução de um estilo interpretativo de uma forma de canto que, tudo indica (ou nada prova) nunca ter existido na população autóctone de Coimbra.
Os instrumentos que o acompanham nem na técnica, nem no encordoamento, nem na afinação – e muito menos na origem – são autóctones de Coimbra.
Os principais intérpretes deste estilo musical não são oriundos de Coimbra, nem dos meios populares.
No meio popular de Coimbra não houve nem há qualquer tipo de canto que minimamente possa ter estado na origem daquilo a que se chama “fado de Coimbra”.
Não se conhecem (salvo raríssimas excepções) nomes de algum vulto de “futricas” de Coimbra associados a este tipo de fado.
Pelo contrário, o fado, os seus intérpretes vocais e instrumentais são, com raras excepções, todos eles oriundos do meio académico.

Deixo de propósito para o fim a questão Artur Paredes. Artur Paredes, das duas, uma: ou aprendeu guitarra sozinho, ou aprendeu com o seu pai, Gonçalo Paredes (e avô de Carlos). Artur Paredes nasceu em Coimbra. Gonçalo também. António Paredes (pai de Gonçalo) era natural da Vacariça (Mealhada) e foi ele quem ensinou Gonçalo, que ensinou Artur, que ensinou Carlos… Ora ou António já sabia tocar guitarra na Vacariça (antes de ter ido para Coimbra) ou só aprendeu em Coimbra, tendo depois ensinado a Gonçalo, que ensinou a Artur, que ensinou a Carlos… Teria sido em Coimbra? Teria sido na Vacariça?

Lê-se por aí que foi Artur quem inventou o estilo de Coimbra – ou pelo menos o revolucionou. Até já li que foi Artur quem inventou a afinação de Coimbra – uma impossibilidade histórica. Querer-se-á dizer que foi ele quem usou a afinação um tom abaixo do diapasão? Talvez. Pouco provável, em minha opinião (e na de Ernesto Veiga de Oliveira, já agora), mas possível.

Assim sendo, quer-me parecer que o fado é tanto “de Coimbra” como o vinho é “do Porto”. Isto é: o vinho do Douro (região onde ele é efectivamente produzido) ganhou fama e lançou-se no mundo por causa dos entrepostos comerciais sedeados no Porto. O vinho escorre literalmente Douro abaixo e embarca no Porto para o resto do mundo. Foi uma imprecisão dos comerciantes ingleses.

Assim o fado escorre e desagua em Coimbra pela mão e voz da sua população académica. É neste sentido que ele é “de Coimbra” – da Coimbra académica, folgazã, irreverente, apaixonada e saudosa. 

Termino como comecei a minha primeira intervenção: há duas proposições igualmente indemonstráveis: a de que o “fado de Coimbra” só poderia ter nascido em Coimbra; a de que o fado “de Coimbra” teria nascido mesmo que a Universidade se tivesse radicado noutro sítio qualquer.

Facto: foi EM Coimbra que este estilo musical se desenvolveu. E desenvolveu-se exclusivamente no meio académico. Que por acaso estava sedeado em Coimbra.

Por nunca ter estudado em Coimbra, não estou radicalmente impossibilitado de me sentir irmanado em sensibilidade com todas as gerações de académicos que viveram algum tempo da sua vida na Lusa Atenas, contribuindo cada um com a sua migalha de sensibilidade e inspiração para formar essa liga preciosa que resiste à erosão do tempo e da distância.

Não é, portanto, nem uma incorrecção, nem uma tolice, nem uma leviandade – e muito menos uma usurpação (ou tentativa de…) dizer que o fado é académico.

3 comentários:

  1. Seja quem foi que escreveu este artigo, perdoe-me a franqueza académica, de um natural e antigo estudante universitário de Coimbra, mas eu achei uma grande estupada. Eu julgo ter escrito bem a palavrão, mas é o que eu senti no momento. É demasiado irónico, chocarreiro e bem corrosivo.

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  2. Luís Alberto, melhor do que adjectivar, contraponha com factos estudados e documentados.
    O Eduardo Coelho teve a cortesia e honestidade de suportar o seu artigo com factos. Contraponha igualmente com tal, para exercer um contraditório feito com base na mesma honestidade intelectual.
    Cumps.

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  3. Queria aduzir alguns factos, sem pretender retirar mérito ao artigo que comento.
    A partir de 1850 registam-se espectáculos de guitarra, se preferirem guitarradas nas actuações TAUC. Há registos e conhecem-se os guitarristas.
    Até Artur Paredes a afinação usada pelos guitarristas activos em Coimbra era a chamada afinação natural - do agudo para o grave: Si Sol Mi Si Sol Mi. Foi mesmo Artur Paredes que concebeu a afinação hoje em dia conhecida por "afinação de Coimbra".
    Artur Paredes introduziu inovações, e foram mesmo grandes inovações, quer no estilo, que na técnica guitarrística. Se comparararmos, os registos de Artur Paredes com os registos deixados por cultores da "velha escola" e que deixaram registos, como Anthero da Veiga, Peres de Vasconcelos, por exemplo, são evidentes as enormes diferenças. Valerá a pena, a título de curiosidade, ouvir as gravações de Manuel Paredes, tio de Artur Paredes, portanto irmão de Gonçalo Paredes, para tentar-se avaliar se a técnica que Artur Paredes aperfeiçou, provinha de um fundo familiar específico de toque.
    Creio que merece a atenção o facto curioso de nomes tão importantes no panorama da guitarra de Coimbra, três dos grandes vultos nunca foram estudantes da UC, Anthero da Veiga, Artur Paredes e Flávio Rodrigues.
    Os Irmãos Caetano Também pertenciam à comunidade futrica e deixaram registos fonográficos onde podemos apreender um fundo de canto popular regional.
    São apenas alumas ideias que este interessante artigo me despertaram.
    Com os meus melhores cumprimentos
    António Lico,

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