QUEIMA DAS FITAS

QUEIMA DAS FITAS NA ACADEMIA DO PORTO

Ao contrário do que se pensa, a Queima das Fitas no Porto não é muito mais recente que a de Coimbra. Aliás, já anteriormente a 1920 os finalistas de Medicina faziam a chamada "Festa da Pasta", tal como se comprova por artigo do Jornal de Notícias:
Levados da breca – A ENTREGA DAS PASTAS – Tradição Académica. São sempre cheias de espírito e de entusiasmo as festas que os nossos quintanistas de Medicina todos os anos realizam como comemorativas da entrega da pasta aos camaradas do quarto ano. 
(in Jornal de Notícias, 30 de Maio de 1920)

Deduz-se, portanto, que por esta altura já existia uma festa tradicionalmente académica que consistia na passagem da Pasta dos que finalizavam a vida académica e o seu curso para aqueles que chegavam a essa recta final.
Uma descrição mais pormenorizada encontra-se no jornal "Primeiro de Janeiro":
Às 9 horas: saiu da Escola (Médica – note-se que já desde 1911 esta estava constituída como Faculdade da Universidade do Porto) um grupo de Zés P’reiras e gaiteiros que percorreram as ruas próximas, fazendo um barulho ensurdecedor, barulho que aumentou consideravelmente com o estralejar de foguetes.
Às 13 horas: saíram da Escola muitos estudantes acompanhados de duas bandas de música, a do Terço e a do Internato Municipal, dirigindo-se para o Cais da Ribeira a fim de aguardar o inventor da «Sanocrisina» e a sua comitiva. No cais da Ribeira juntou-se muito povo que ria com as falécias dos rapazes e o bom humor mais se evidenciou quando, após uma curta demora chegou ao cais um caiaque do qual desembarcaram quatro académicos que representavam o inventor da «Sanocrisina» e sua comitiva.
Houve abraços, cumprimentos, grandes chapeladas, muitas palmas e tratou-se da organização do cortejo, que seguiu pelas ruas de S. João, Mouzinho da Silveira, Praças Almeida Garrett e da Liberdade, ruas dos Clérigos, Carmelitas, Universidade, ingressando na Faculdade de Medicina. O átrio foi a sala de recepção. Ali se deram as boas vindas e seguidamente, o grande inventor usou da palavra para expor o que era o célebre medicamento, isto entre a gargalhada dos estudantes e do numeroso público que assistia. Depois falaram ainda outros oradores, recebendo todos muitos aplausos. Terminada esta cerimónia realizou-se a outra. A entrega das pastas e dos grelos e a emancipação dos caloiros que decorreu também cheia de alegria e com toda a solenidade. Depois... o tradicional copo d'água. Vinho, tirado ali do pipo, boroa, azeitonas e iscas. Este número foi o de maior sucesso, pois os académicos em pouco tempo viram o fundo ao pipo e aos pratos. Foi uma verdadeira razia! Assim acabaram as festas dos estudantes de Medicina que tiveram, de facto, muita graça. O edifício da Escola, estava vistosamente engalanado com bandeiras de papel.' 
(in O Primeiro de Janeiro, 10 de Maio de 1925)

Esta actividade, que no início se cingia apenas à Faculdade de Medicina, com o passar dos anos acabou por tomar uma relevância tal, que outras Faculdades lhe aderiram.
Uma boa notícia para a academia foi ontem largamente espalhada devendo hoje ser confirmada pelos factos: hoje, da parte da tarde, realizam-se em todas as faculdades a festa da Pasta. Está assim aberto o caminho para uma união ainda mais completa da academia universitária portuense, para, à semelhança da de Coimbra, realizar uma «Queima das Fitas» que, pela sua grandiosidade e imponência traga um maior prestígio à nossa Universidade e, portanto, implicitamente ao Porto. Já lá vai o tempo em que era corrente ouvir que só em Coimbra havia ambiente académico e alma de estudante; hoje a nossa academia universitária está resolvida a desmentir por completo essa ideia no conceito público. Assim, sabemos que para o ano se projecta a formação de uma comissão central, logo desde o princípio do ano, bem como a de várias comissões, uma parte para cada faculdade, de forma a levar ao mesmo sentido todos os esforços a fim de dar à Queima das Fitas da Universidade do Porto uma forma e brilho superiores à de Coimbra, isto sem bairrismo, já se vê... 
(in Jornal de Notícias, 14 de Maio de 1943)

Eis, pois, preto no branco, confirmada a individualidade das Tradições Académicas Portuenses!

Logo no ano seguinte, em 1944, realizou-se uma Missa da Benção das Pastas na Igreja dos Clérigos no dia 3 de Maio, e observa-se a utilização simultânea dos dois termos:
Os estudantes do Porto (...) cumprindo as praxes, realizaram ontem (dia 12 de Maio), em arraial luzidio, barulhento, alacre, a Queima das Fitas, a tão célebre e popular Festa das Pastas.
(in Jornal de Notícias, 13 de Maio de 1944)

Está registado, neste artigo, um pedaço importante de história, em que, numa quase imperceptível transição, usam-se os termos "Festa de Pasta" e "Queima das Fitas" como sinónimos.

Em 1945, deixa-se definitivamente de utilizar o termo "Festa da Pasta" e passa-se a falar na "já tradicional" festa da "Queima das Fitas", comprovado pela edição do "O Primeiro de Janeiro" de 19 de Maio de 1945.

Está visto que não se pode falar numa primeira "Queima das Fitas" do Porto, mas sim dizer que é a partir desta altura (e não de um ou outro ano) que esta assume os contornos mais actuais. As raízes da Queima é que se podem ir buscar anteriormente a 1920, mais precisamente à "Festa da Pasta".

Numa evolução normal, a Queima processa-se com toda a naturalidade até 1971. Em Coimbra, no entanto, esta desaparece em 1969, ano em que é decretado o "Luto Negro".

No Porto, continua-se a gozar a alegria suprema da semana da "Queima" até 1971, ano em que surgem maiores contestações e esta deixa de se realizar até 1978.
Até 1978, o deserto... Inclusive, as novas condições políticas levaram a que houvesse um certo receio de retaliações, porque as forças mais activas dessa época consideravam as manifestações de cariz académico tradicional como "reaccionárias". Mas, neste ano, um arranque bem forte faz com que as velhas "Tradições Académicas" apareçam à luz do dia mais limpas da lama que as cobria desde à alguns anos. Ouviam-se impropérios, receberam-se frutas podres, pedras, etc., mas não se parou. A "Mini-Queima" - como ficou conhecida a de 1978 - foi o primeiro passo para o reatar das Tradições, que até hoje não pararam de crescer, em aderentes e entusiasmo.  
(in QVID PRAXIS? (PORTVCALENSIS), Cabral, Manuel e Marrana, Rui; Porto, 1982, AEUCP)

No ano seguinte, vencidos os receios sentidos por muita gente, realiza-se uma Queima mais alargada. Surgem duas comissões organizadoras, uma que congregava elementos da FCUP, FPCEUP, FEP, FCNAUP e do ISCAP, que apresentou a ideia da "Semana da Academia" e uma outra, composta por elementos da FEUP, FMUP, FFUP, FMDUP e ICBAS que formavam a comissão intitulada de "Secretariado da Queima das Fitas Tradicional". Só a última singrou. A primeira acabou por se afundar com os organizadores, "nos pantanais do sectarismo político".

O "Secretariado da Queima das Fitas Tradicional" desde logo contou com a adesão de uma grande maioria dos académicos. Na conferência de imprensa que realizaram, afirmaram:
Estudantes que somos de uma Academia velha de décadas e rica de tradições e valores, rejeitamos a ideia de que fazer-se tradição seja fazer-se política, como reprovamos a actuação daqueles que, hoje, mais espalhando este conceito, ontem se aproveitaram das tradições para a promoção dos seus ideais (...) 
(in O Primeiro de Janeiro, 5 de Maio de 1979)

E nesse ano, lá saíram para a rua os carros alegóricos decididos a reatar a tradição, tendo tido já muita gente de todas as condições a vê-los passar e a manifestar o seu apoio.

A Missa da Benção das Pastas desse ano foi efectuada na Igreja dos Clérigos, tendo sido celebrada pelo Rev. Prof. Doutor Bernardo Xavier Coutinho, que na missa disse aos estudantes:
O que se está a realizar hoje não é uma alienação. Somos conscientes, temos personalidade e sabemos o que queremos. O futuro é sempre a projecção do passado e o presente só existe quando temos a coragem e a ombridade de tomar posições, como a que estamos a tomar aqui. Não vos deixeis intimidar. Sois os continuadores de uma tradição muito antiga, de médicos, de engenheiros e eruditos. Aqui, na Igreja construída por Nasoni, na Igreja precursora do barroco, o arquitecto deve ter dado dois pulos de satisfação na sua tumba, por vós aqui estardes! 
(in O Primeiro de Janeiro, 18 de Junho de 1979)

Belas palavras, de facto, que muito significado e valor dão a tal manifestação tradicional.

Até hoje, a velhinha Queima continua a ser popular, provocando sentimentos vários por quem a vive intensamente. Quem a vive, leva-a para a vida, como um traço de nós próprios e que nos orgulha de sermos Estudantes.